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Eliane Cantanhêde
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Oremos!

O governo Dilma Rousseff aboliu do dicionário da República os termos "apagão" e "racionamento", mas vamos aos fatos: com o consumo de energia batendo recorde atrás de recorde e os níveis dos reservatórios em baixa, no fundo do poço, a conta não fecha. Algo precisa ser feito. Ou, ao menos, dito.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2015 | 02h07

Atarantado, o governo não diz coisa com coisa. Quando dez Estados e o Distrito Federal ficaram às escuras, foi reunião daqui, entrevista dali, e nada de uma explicação confiável e de anúncio de providências sérias.

Político, o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, botou vagamente a culpa numa tal "falha técnica ou humana" e saiu-se com essa, que já entra para os anais do reinício do mandato Dilma: Deus é brasileiro, vai dar um jeito de mandar frio e chuvas e salvar a Pátria.

Técnico, o diretor geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chip, foi mais realista: com esse calorão, dispara o uso de ar-condicionado, ventilador, chuveiro e máquina de lavar e houve um pico de consumo que o sistema não suportaria. E, já que não suportaria, teve de ser desligado preventivamente.

O político nega e o técnico confirma que a geração não está dando conta do recado e o resultado é que houve um apagão para evitar um risco de apagão (?!). O que nenhum dos dois disse, mas ocorria naquele mesmo dia, é que o gigante Brasil foi bater na porta da encalacrada Argentina, de pires na mão, para pedir um pouco de energia emprestada.

E se o ONS não tivesse desligado preventivamente o sistema em quase metade das unidades da Federação? E se não tivesse pedido socorro à Argentina? Dá até para saber o que poderia acontecer, mas não o nome que isso teria no dicionário da presidente. De apagão e de racionamento não se pode falar, nem pensar alto...

Segundo dados do próprio ONS, 85% das hidrelétricas estão com níveis de água inferiores aos que registravam durante o apagão do governo Fernando Henrique, em junho de 2001. No Sudeste e no Centro Oeste, responsáveis por cerca de 70% da capacidade de geração de energia do País, os níveis dos reservatórios bateram em 17,63%. No apagão, tinham 28,55%. E todo dia tem novo recorde de consumo.

As termelétricas estão trabalhando a todo vapor, apesar de serem muito mais caras que as hidrelétricas e só servirem como Plano B, como complementação. O Plano B está virando Plano A.

Feia a coisa, mas o mais incrível é como o setor público é capaz de bater cabeça - e de cometer erros. Outro dado rapidamente, para não cansar, é o desperdício de 37% da água tratada no Brasil. Só em São Paulo, que vive uma alarmante falta de água, o desperdício em 2013 foi de 34,3%. Os cidadãos ficam sem água aqui, e o setor público joga fora água tratada ali.

Por quê? Por falta de planejamento, infraestrutura, investimento, manutenção, treinamento de pessoal. Em outras palavras, por descaso mesmo, num país que desperta inveja no mundo inteiro por ser uma potência hídrica. E não adianta rezar para Deus. Nem para Cristina Kirchner.

Nos Andes. Aliás, por onde anda a presidente da República durante essa confusão toda, de crise de energia, de aumento de juros, de crédito mais caro para as pessoas físicas e de insubordinação no PT? Em Davos, atraindo investidores? Não. Dilma está em La Paz para a posse do presidente Evo Morales, que não tem a menor novidade: a Bolívia fica aqui do lado e essa posse de Morales nem foi a primeira nem será a última.

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