Ordem para Polícia Federal é 'botar o pé no aceleador', diz ministro da Justiça

Martins Cardozo nega que o governo tenha pedido para a PF reduzir ritmo das operações contra corrupção e anuncia liberação de R$ 14 milhões

Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo

06 de maio de 2011 | 22h29

"A ordem é a Polícia Federal botar o pé no acelerador”, afirmou na noite desta sexta-feira, 6, o ministro José Eduardo Martins Cardozo, da Justiça, ao ser indagado se a PF recebeu orientação do governo para reduzir o ritmo das operações contra a corrupção e o crime organizado.

 

Em São Paulo, onde acompanhou a cerimônia de posse do novo superintendente regional da PF, o delegado Roberto Troncon Filho, o ministro anunciou estrategicamente a liberação de R$ 14 milhões destinados à rubrica diárias. A medida pode aplacar momentaneamente críticas que se multiplicam no interior da corporação.

 

Nas últimas semanas são cada vez mais fortes rumores de que a escassez de verbas tem comprometido pesadamente missões importantes da polícia, sobretudo o combate ao colarinho branco e a organizações que fraudam licitações. A falta de dinheiro também afeta ações nas fronteiras, alegam os federais.

 

Cada deslocamento dos federais para investigações e missões de rua custa alto para os cofres do Tesouro. Geralmente, são numerosos os contingentes de policiais mobilizados.

 

Desde o início do governo Dilma Rousseff (PT) a PF sofre com o corte de verbas que atingiu também o Ministério da Justiça, pasta à qual é vinculada. Já em 2010, último ano do governo Lula, a PF sofreu contingenciamento da ordem de R$ 120 milhões. A contenção frustrou agentes e delegados. Sem recursos, as grandes operações praticamente ficam esvaziadas.

 

O ministro da Justiça assegurou que as investigações da PF não estão comprometidas. “Pelo contrário, a ordem é botar o pé no acelerador”, disse Cardozo. “Mas dirigindo, do ponto de vista de gestão, da forma mais cuidadosa. Cada centavo tem que ser multiplicado por dez, uma boa gestão. Isso vem acontecendo, a PF tem uma excelente gestão.”

 

Sem especulações. Cardozo chegou muito atrasado à solenidade, prevista para ter início às 16h30. Trezentos delegados federais, procuradores e autoridades de diversos ministérios e secretarias de Estado aguardaram impacientes por 2h40 o ministro – ele apareceu, enfim, às 19h10. Cardozo chegou sob escolta de camburão da PF com sirene aberta.

 

Logo no início de seu pronunciamento anunciou os R$ 14 milhões. Esse dinheiro, no entanto, não é exclusivamente para a PF. Será distribuído também entre a Polícia Rodoviária Federal e a Força Nacional. “Conseguimos uma liberação de R$ 14 milhões para as diárias e vamos analisar junto com a PF, a Polícia Rodoviária Federal e a Força nacional, aqueles órgãos que necessitam de diárias para suas operações imediatas.”, disse o ministro.

“Evidente que se for necessário voltaremos a dialogar com o Planejamento, mas isso [os R$ 14 milhões] já desafoga a situação e evita especulações que estavam ocorrendo, diziam que as operações estavam parando e não estavam.”

 

O ministro afirmou que a PF está produzindo mais que no ano passado. “Houve uma série de especulações dizendo que ia parar, que estava parando. Mas nós estamos com um nível de operações idêntico ao do ano passado, talvez até um pouquinho superior. Nós dizíamos isso, mas havia uma especulação. Posso afirmar que aquilo que for necessário para operações será alocado. Há muita sensibilidade do governo para isso.”

 

Cardozo rechaçou a versão de que predomina na população a sensação de que a PF está de mãos atadas no cerco à corrupção. "Não vejo base para uma impressão dessas, nem vi nenhuma pesquisa que apontasse isso”, assegurou. “Ao contrário, as pesquisas que eu tenho acesso mostram que a PF tem um altíssimo padrão de aceitação da população.”

 

“Só este ano tivemos prisões de policiais corruptos no Rio, de grupos de extermínio em Goiás, de policiais rodoviários federais no Rio. Ou seja, as operações continuam com absoluta eficiência pela PF.”

O ministro da Justiça foi categórico. “Talvez alguns quisessem que as coisas fossem espetacularizadas, que as coisas se dessem diante de espetáculos. Não, as investigações boas, corretas, se realizam nos termos da lei com reserva e critério, mas com eficiência. É o que vem acontecendo.”

 

Para Cardozo, o trancamento da Operação Castelo de Areia e o questionamento da Operação Satiagraha no Superior Tribunal de Justiça não põem em xeque o trabalho da PF. “A Polícia Federal cumpre o seu papel e o Judiciário o seu. Se o Judiciário houve por bem expedir decisões que tivessem reflexo nos inquéritos é decisão do Poder Judiciário. Como tal, tem que ser respeitado. A PF continua seguindo o seu caminho, cumprindo a sua missão dentro daquilo que é previsto na legislação.”

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