Ordem para blitz em hotel foi dada de madrugada

Ministério Público foi contra busca no apartamento de Protógenes

Fausto Macedo e Anne Warth, O Estadao de S.Paulo

07 de novembro de 2008 | 00h00

A blitz no apartamento 2508 do Shelton Inn Hotel, endereço do delegado Protógenes Queiroz no centro de São Paulo, foi autorizada horas antes da operação, ocorrida na madrugada de quarta-feira. A ordem partiu do juiz Ali Mazloum, da 7ª Vara Criminal Federal. Especial sobre a Operação Satiagraha"Defiro, tratando-se de mero aditamento de endereço no qual a gerência deverá indicar apartamento ocupado pelo investigado", decretou o magistrado, de punho próprio, no lado direito da página com o pedido de busca feito pelo delegado Amaro Vieira Ferreira, da PF.Acima da assinatura, Mazloum lançou a data de sua decisão: 5 de novembro.Protógenes, mentor da Satiagraha - investigação sobre suposto esquema de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e fraudes financeiras envolvendo o banqueiro Daniel Dantas -, havia chegado ao hotel, na Avenida Cásper Líbero, 115, às 2 horas (ele fez palestra sobre corrupção no Brasil para estudantes da PUC-SP e, após o jantar, dirigiu-se ao Shelton). Pouco depois das 5 horas, os federais, comandados pelo delegado Fernando Duran Poch, bateram à porta do 2508, no 25º andar.Acompanhavam Duran uma escrivã e dois agentes. Protógenes não resistiu à inspeção. Seus colegas agiram com parcimônia, segundo o relato do próprio Protógenes. "Pareciam muito constrangidos", disse o ex-presidente do inquérito Satiagraha, que pediu à equipe que fizesse cópia dos arquivos de seu computador pessoal, em vez de apreenderem o equipamento. Mas os federais não estavam munidos de instrumentos adequados para o espelhamento do conteúdo do computador.A autorização para a inspeção no apartamento de Protógenes foi dada sem concordância do Ministério Público Federal. O procurador da República Roberto Diana, que cuida do controle externo das atividades da PF, manifestou-se contra a medida. Está sob responsabilidade de Diana investigação sobre denúncia do delegado, que, em julho, após ser afastado da Satiagraha, denunciou boicote de superiores à operação.DESNECESSÁRIASO procurador repudiou as diligências requeridas pelo delegado Amaro Ferreira por considerá-las desnecessárias. Logo depois, entrou em férias.O inquérito da PF, oficialmente, foi instaurado para investigar vazamento da Satiagraha. Mas Protógenes acredita que o pano de fundo da ação que teve ele como alvo é uma retaliação - o delegado está marginalizado na instituição desde que se tornou protagonista de uma crise interna na cúpula da PF.Protógenes está convencido de que as buscas são "uma trama" de Daniel Dantas, a quem confere poderes e influências extraordinárias.Ontem de manhã, Protógenes deixou o hotel. "Estou exausto", ele disse, ainda chocado com o que chamou de "violência", referindo-se às buscas que se estenderam a outros 2 endereços seus, em Brasília e no Rio.Muitos policiais, até de outras instituições, procuraram o delegado e a ele emprestaram solidariedade. Sérgio Roque, presidente da Associação dos Delegados da Polícia Civil, declarou: "Acho lamentável a busca. A gente não conhece os autos, mas acho que está havendo uma grave inversão: o investigador passou a ser investigado. Isso fere as prerrogativas e cria insegurança para o delegado."

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