Ordem de reunir

O presidente Luiz Inácio da Silva não sossega enquanto não revidar de alguma forma a derrota sofrida em dezembro do ano passado, quando o Senado rejeitou a prorrogação da CPMF.Foi o resultado mais surpreendente e politicamente mais significativo dos cinco anos de governo Lula. Deu ensejo a todo tipo de análises, muitas até francamente exageradas.Decretou-se o fim dos embates do governo no Congresso, onde - segundo alguns autores - daqui até o fim do mandato de Lula não aconteceria mais nada, a não ser irrelevâncias.A oposição, embalada pela inesperada vitória, chegou a enxergar na rejeição da CPMF a construção da barreira definitiva a qualquer tentativa de mudança da regra do jogo eleitoral para dar ao atual presidente a chance de disputar um terceiro mandato consecutivo.De lá para cá o governo já voltou a competir e a ganhar no Legislativo. O mundo não se acabou sem a CPMF e a vida tampouco foi cruel com o Executivo, que arrecada muito e gasta ainda mais.Mesmo assim, o presidente da República não sublima aquele fracasso. Manda sua tropa no Congresso se reunir de novo para tentar ressuscitar o imposto do cheque - com outro nome, outra alíquota, destinação específica, por meio de legislação infraconstitucional, seja de que forma for - e dedica-se com afinco a uma ofensiva para tirar da CPMF a carga negativa que deu impulso à sua rejeição.Semana passada falou das obras que poderiam ser feitas com os R$ 40 bilhões perdidos e ontem falou dos preços que não baixaram apesar do fim do imposto.Uma simplificação, claro. Nem o efeito do fim de uma cobrança sobre transações financeiras, extinta cinco meses atrás, pode ser medido assim a olho nu nem a nova proposta renderia a arrecadação lamentada pelo presidente, dada a redução da alíquota de 0,38% para 0,10%.Mas Lula quando quer alguma coisa faz assim mesmo: simplifica as variáveis, reescreve o enunciado do problema e sai a campo dando ao fato até ontem negativo a versão positiva sob a ótica para ele mais conveniente.No presente momento é o que está fazendo em relação à CPMF. Doura a pílula do imposto, isso dá para ver. Agora, com qual objetivo exatamente ainda não é possível enxergar.A história oficial, de que o governo quer, mas não patrocina por tática política, não se sustenta. A começar pela desenvoltura presidencial na defesa aberta e sistemática da CPMF.Quando Lula faz pessoalmente propaganda do imposto, sinaliza que o assunto é prioritário o bastante para não ser deixado só aos cuidados da base parlamentar.Falta, porém, definir com nitidez qual seria essa prioridade. O dinheiro parece pouco para justificar o tamanho da briga. Uma ação preventiva para amenizar possíveis efeitos de vetos presidenciais a demagogias ainda dependentes de votações no Congresso também soa desproporcional.O mais provável é que o presidente esteja reunindo a tropa para dar um troco bem dado na oposição e acumular forças no Congresso para algum lance seguinte à eleição municipal. Pode ser o fim da reeleição e, no embalo, um atalho ao terceiro mandato.Poderosos "pauzinhos"Hoje faz 13 dias que o corregedor da Câmara, deputado Inocêncio Oliveira, se impôs um prazo de 48 horas para decidir o que fazer diante das denúncias de envolvimento do deputado Paulo Pereira da Silva no esquema de corrupção investigado pela Polícia Federal no BNDES.Na ocasião, o corregedor qualificou como "grave" a situação de Paulo Pereira, também presidente da Força Sindical, e disse basear sua opinião no fato de "a cada dia" surgirem novos elos entre o deputado e o grupo que, segundo a PF, operava empréstimos fraudulentos no banco.Agora a polícia incluiu o nome de Paulo Pereira no organograma da "organização criminosa" descoberta pela Operação Santa Tereza.O corregedor ficou de encaminhar o caso ao Conselho de Ética ou a uma comissão de sindicância da Câmara, mas não se manifestou mais e nenhum partido se dispôs a acompanhar o PSOL no pedido de abertura de processo por quebra de decoro a ser apresentado ao conselho.Há duas possibilidades para essa demora: ou o deputado-corregedor quis demonstrar rigor, mas não encontrou nos fatos sustentação à sua tese sobre a gravidade da situação de Paulo Pereira - o que o torna devedor de um pedido público de desculpas ao colega - ou o silêncio é fruto de um acordo tácito do Parlamento, cuja natureza talvez encontre explicação nos próprios autos do inquérito.De acordo com o Ministério Público, quando um dos primeiros a serem pegos na operação - o advogado Ricardo Tosto, conselheiro do BNDES por indicação da Força - deixou a prisão no início de maio, Paulo Pereira telefonou para ele prometendo "mexer os pauzinhos" no Congresso para retaliar contra o Ministério da Justiça e a PF.

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