Sebastião Moreira/EFE
Sebastião Moreira/EFE

Ora, polarização

A polarização entrou no clima eleitoral antes que se definissem os candidatos

Rosângela Bittar, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 03h00

Então, chega um novo Datafolha e desmente a impressão geral de que a polarização é irreversível e que o radicalismo é marca irremovível do cenário político. Com uma revelação adicional: os brasileiros são legalistas apaixonados, têm um olho na lei e outro na emoção.

Os mesmos 54% que antes apoiaram a decisão de prender Lula aprovam agora sua libertação, simplesmente porque assim foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal.

Como a política vive da projeção eleitoral, os planos de Lula pós-prisão guardam certa identidade com a percepção que vem tendo o eleitorado. Pode-se aprovar e desaprovar, não é preciso temer, discurso não machuca nem muda o mundo, deixa acontecer e o que vai lograr. As instituições são sólidas, tudo tranquilo. Até aqui, brother.

A miragem da polarização aconteceu de fora para dentro do governo e do PT. Dois dias depois que Lula saiu da prisão, Bolsonaro saiu do silêncio que se impôs sobre o fato e passou a revidar o ataque sofrido nos discursos da celebração.

Foi o que bastou, e parecia interesse de ambos, para revigorar o extremismo. Não era uma estratégia. A polarização entrou no clima eleitoral antes mesmo que se definissem os candidatos. Uma divisão tão profunda quanto falsa.

Até porque só há candidato de um lado, Jair Bolsonaro. Lula está em campanha, como sempre. Para que, ou para quem, eis a questão. No momento, para ele mesmo, embora esteja inelegível com base na Lei da Ficha Limpa.

Enquanto reacende a militância em caravanas, palanques, articulações, reuniões, com o objetivo que der e vier, Lula deixa que os profissionais, eles sim, toquem uma estratégia bem definida.

A questão central para o PT é fazer um esforço conjunto de advogados e líderes políticos para resolver a situação jurídica de Lula e tirá-lo da Lei da Ficha Limpa. Isso significa trabalhar para atingir a nulidade dos processos do triplex e do sítio de Atibaia, remover o cipoal de ações judiciais que tramitam em Curitiba e em Brasília.

Os advogados acham que devem dar mais atenção a Curitiba, onde constatam muita perseguição e pouca observância das normas jurídicas, das decisões do STF, da jurisprudência. Em Brasília, a seu ver, há maior equilíbrio.

Se obtiver êxito, o que se considera quase impossível, muito difícil mesmo, Lula será o candidato.

Se não, entrará em cena um segundo momento, o de escolha de um candidato do PT, com menos perspectivas de sucesso do que Lula, mas mantendo-se a fidelidade ao princípio da candidatura própria. Hoje, a cartola está vazia, os nomes são os do senador e ex-governador Jaques Wagner e do ex-prefeito Fernando Haddad.

Embora mais desgastado que Wagner, Haddad teria a vantagem, segundo previsões internas, dos bons resultados obtidos em 2018: com 20 dias de campanha foi ao segundo turno e, lá chegando, fez quase 50 milhões de votos.

Lula não considera que está isolando o PT e acredita que se juntarão ao partido, mesmo que o candidato não seja ele, o PCdoB, o PSOL e parte do PSB. Nenhum desses com peso político para fazer diferença, com exceção do PSOL, que, já foi registrado, pretenderia absorver o espólio do PT em pouco tempo. E o PSB, se tiver candidato, não vai se dividir.

A impedir o crescimento desta aliança está Ciro Gomes, no comando do PDT. É explícito o movimento de Ciro para se descolar do PT e os ataques a Lula já definiram sua posição contra o ex-presidente de cujo governo participou.

O PT mapeou três bandeiras adversárias, o que comprovaria que a polarização inexiste: o anti-Lula da extrema direita, Jair Bolsonaro; o anti-Lula da direita, João Doria; e o anti-Lula do centro, Ciro Gomes.

Não há como ignorar que é amplo o espaço vazio por onde podem entrar as novidades da política.

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