Oposição vai ao Conselho de Ética pela 4ª vez, mas Lula ainda defende Sarney

Presidente minimiza gravações e diz que ?não se pode é vender tudo como um crime de pena de morte?

Rosa Costa e Moacir Assunção, O Estadao de S.Paulo

24 de julho de 2009 | 00h00

Enquanto o líder do PSDB no Senado, senador Arthur Virgílio (AM), oficializava no Conselho de Ética, em Brasília, a quarta denúncia contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistia ontem em fazer sua defesa. "É preciso saber o tamanho do crime. Uma coisa é roubar, matar, outra é pedir emprego e o tráfico de influência, o lobby. O que não se pode é vender tudo como um crime de pena de morte", declarou o presidente, em entrevista à Rádio Globo, em São Paulo. OUÇA: os diálogos da família Sarney sobre negócios ÁUDIO: Ouça os diálogos que ligam Sarney a atos secretos e a AgacielFoi uma tentativa de minimizar as gravações, feitas legalmente pela Polícia Federal, reveladas pelo Estado na quarta-feira - nas quais o empresário Fernando Sarney, filho do senador, negocia um emprego no Senado para o namorado da filha Beatriz. É a quinta vez que Lula defende o aliado desde o início do escândalo dos atos secretos.Na contramão do presidente, contudo, a oposição reforçou ontem a pressão para que Sarney deixe o comando do Senado. Além da nova iniciativa de Virgílio, os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Cristovam Buarque (PDT-DF) anunciaram que vão solicitar formalmente ao presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), que antecipe a reunião (marcada para dia 4) que examinará as quatro denúncias e a representação do PSOL impetradas contra Sarney. Em férias no Rio, Duque avisou, porém, que não convocará reunião de emergência. "Não tenho como reunir 15 pessoas durante o recesso. Nem todos podem vir. Além disso, não há previsão regimental para fazer isso."INSTRUMENTOSDurante a entrevista, Lula defendeu a tese de que Sarney não deve ser afastado, mesmo com as gravações que indicam seu envolvimento nos escândalos. "O Senado já cassou senadores, já cassou presidente da República e tem instrumentos para fazer a apuração. O que não posso entender é que toda pessoa que tenha uma denúncia contra ela tenha de renunciar ao cargo."O presidente justificou a recomendação que fizera ao Ministério Público Federal durante a cerimônia de posse do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. "Eu disse (na posse) que o Ministério Público tem de tomar o cuidado de cumprir a lei ao pé da letra, sem ceder à pressão do Executivo, da imprensa ou do Legislativo. Muitas vezes, as pessoas são condenadas antes de se provar que cometeram crimes e é preciso investigar tudo", disse. "O fundamento da democracia passa pelos organismos de investigação terem liberdade para investigar e depois oferecer um veredicto. Daí, o Judiciário faz o julgamento e dá a pena, mas há denúncias que não dão em nada e não podemos estabelecer a morte precoce."Logo após a primeira reportagem do Estado sobre os atos secretos, Lula, em viagem ao Casaquistão, no dia17 de junho, criticou o que chamou de "denuncismo" e disse que Sarney não era "uma pessoa comum". Dias depois, de volta ao Brasil, afirmou que "a mídia prefere desgraça", ao defender o senador. No dia 2 deste mês, enquadrou os senadores petistas que ameaçavam se rebelar. No dia 13, pediu aos ministros apoio ao aliado, alegando que "não se pode individualizar acusações". Na posse do procurador, anteontem, pediu atenção à "biografia dos investigados", em referência indireta a Sarney.Na denúncia, Virgílio pede a instauração de processo disciplinar com prazo de cinco dias para que Sarney e o diretor-geral Agaciel Maia sejam ouvidos sobre o teor das gravações. Cristovam e Simon também anunciaram ontem que vão reiterar os apelos feitos para convencer o presidente da Casa a renunciar. "Se não fizermos nada, não sei até quando vamos aguentar a pressão da opinião pública, não contra Sarney, não mais contra um ou outro senador, mas contra todos os senadores e contra a própria instituição", disse Cristovam. LEGISLATIVO EM CRISEO senador pressionadoNO CONSELHO DE ÉTICAPRIMEIRA REPRESENTAÇÃOEm 29/06Autor: senador Arthur Virgílio (PSDB-AM)Pede apuração sobre o número de parentes e afilhados políticos de José Sarney nomeados no Senado. Lista 18 itens passíveis de investigação, incluindo o caso de José Adriano Cordeiro Sarney, neto do parlamentar e sócio da Sacris, que faz intermediação de empréstimos consignados para servidores da CasaSEGUNDA REPRESENTAÇÃOEm 30/06Autor: PSOLRepresentação cita tanto o atual presidente do Senado, José Sarney, como o ex-comandante da Casa Renan Calheiros (PMDB-AL). Partido defende a investigação de todos os atos secretos baixados ao longo dos últimos 14 anos, que teriam beneficiado correligionários e parentes dos dois parlamentaresTERCEIRA REPRESENTAÇÃOEm 10/07Autor: VirgílioLíder tucano pede investigação sobre o desvio de R$ 500 mil para empresas fantasmas ou da família Sarney de patrocínio de R$ 1,3 milhão da Petrobrás concedido à Fundação José Sarney, em São Luís, conforme revelou o Estado em 09/07. Estatuto mostra que clã Sarney tem o total controle dessa entidadeQUARTA REPRESENTAÇÃOProtocolada ontem Autor: VirgílioCita reportagem do Estado de quarta-feira. Interceptações telefônicas feitas pela PF, com aval da Justiça, na Operação Boi Barrica, comprovam ligação de Sarney com ex-diretor Agaciel Maia e os atos secretos. Clã se mobilizou para nomear, por ato secreto, o namorado de uma neta do senador, Bia SarneyNO MINISTÉRIO PÚBLICOEm 10/07Autor: VirgílioTucano pede apuração de desvio na Fundação Sarney. Senador não aparece na representação, mas Virgílio pede responsabilização de "outros possíveis envolvidos"

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