Oposição vai à Justiça contra chapa da situação na ABI

Representantes da chapa oposicionista afirma que adversários usaram cheque pessoal para quitar débitos de sócios para participar de eleição; entre eles estaria Tim Lopes, assassinado em 2002

Marcelo Gomes

22 Abril 2013 | 17h46

Representantes da chapa Vladimir Herzog, de oposição à atual diretoria da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), vão à Justiça para tentar impugnar a chapa adversária, Prudente de Morais, encabeçada pelo atual presidente e candidato à reeleição pela terceira vez, Maurício Azêdo. Diretor financeiro da chapa oposicionista, Paulo Jerônimo de Sousa, mais conhecido como "Pagê" acusa Azêdo de ter usado um cheque pessoal para quitar débitos de 17 sócios que integram a Prudente de Morais, entre eles Arcanjo Antônio Lopes do Nascimento, mais conhecido como Tim Lopes, jornalista da Rede Globo de Televisão assassinado em 2002 por traficantes do Complexo do Alemão, zona norte do Rio.

O Regulamento Eleitoral da ABI prevê que todos os integrantes das chapas devem estar quites com as mensalidades. O cheque, no valor de 595 reais, é datado de 11 de março. O prazo final para inscrições era o dia 20 do mesmo mês. A relação dos sócios que tiveram os débitos pagos foi manuscrita por Azêdo no verso do cheque.

"A intenção do Azêdo era, na verdade, quitar os débitos de Miro Lopes, irmão de Tim, que integra a chapa dele. Mas na pressa, acabou escrevendo o nome do falecido Tim. Desta forma, Miro continua inadimplente, e a Prudente de Morais tem de ser impugnada pelo mesmo motivo que a Vladimir Herzog foi impedida de concorrer. É o caso do malandro que se perde na própria malandragem", afirmou "Pagê".

Procurado pela reportagem, Azêdo disse que o Regimento Eleitoral permite a substituição de membros das chapas. Azêdo também prometeu que denunciará "Pagê" e Domingos Meirelles, presidente da Vladimir Herzog, à Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) da Polícia Civil do Rio, na quinta-feira, 25. "Os senhores Pagê e Domingos Meirelles estão cometendo um crime porque pegaram um cheque meu, de maneira irregular e com a conivência de funcionários da ABI, e puseram na internet com objetivos escusos", disse Azêdo, que preside a entidade desde 2004.

O pleito para presidência da ABI, marcado para sexta-feira (26), está sub judice: a 8.ª Vara Cível do Rio negou na semana passada pedido da Vladimir Herzog para adiar liminarmente a eleição por suspeitas de irregularidades, mas estabeleceu que o resultado só será homologado após a análise do mérito da questão. A ação foi interposta após a "Vladimir Herzog" ter sido impugnada pela comissão eleitoral por ter, entre os membros, sócios inadimplentes com a ABI.

Memória. A briga de chapas na ABI contrasta com um passado de envolvimento em lutas pela democracia no Brasil praticamente desde a fundação, em 1908. Durante a ditadura militar (1964-1985), essa postura transformou a entidade em alvo de grupos anticomunistas. Em 1976, uma bomba, supostamente detonada por agentes da repressão política, explodiu em sua sede. Até a redemocratização, a ABI liderou movimentos como a campanha das Diretas-Já, em 1984, que exigiu eleições diretas para presidente da República. Com a democracia, porém, seu peso político foi diminuindo, enquanto outras entidades, como partidos políticos e centrais sindicais, surgiam e se fortaleciam no campo político. A ABI viveu um de seus derradeiros momentos de destaque em 1992, quando seu então presidente, Barbosa Lima Sobrinho, assinou, com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo Lavenère Machado, o pedido de impeachment do presidente Fernando Collor.

 

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