Oposição tenta se livrar do desgaste

De olho em 2010, PSDB e DEM agora criticam, mas não retiram apoio a medidas de forte apelo popular

Marcelo de Moraes, Brasília, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2008 | 00h00

Enfraquecida dentro do Congresso desde a derrota imposta ao governo na votação da prorrogação da CPMF, a oposição começa a encontrar um novo discurso para se contrapor ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mirando na sucessão presidencial de 2010. Os líderes de PSDB e DEM desistiram da estratégia de apenas votar contra as propostas de interesse do governo. Passaram, agora, até a apoiar algumas medidas, mas lançando sobre Lula e sua equipe a responsabilidade pelas conseqüências que essas aprovações venham a ter no futuro.Assim, ficam liberados para fazer críticas, mas não se desgastam por votarem contra medidas de apelo popular, como a concessão de benefícios a categorias de trabalhadores, enviadas ao Congresso por medidas provisórias (MPs). Se forem aprovadas, essas MPs beneficiarão 91.308 servidores civis, sendo 45.661 ativos, 30.062 aposentados e 15.585 instituidores de pensão. O impacto das medidas será de R$ 1,9 bilhão em 2008, R$ 4,7 bilhões em 2009, R$ 6,6 bilhões em 2010, e R$ 7,2 bilhões em 2011, num custo total aproximado de R$ 20,4 bilhões. Na última quarta-feira, o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM) ocupou a tribuna do plenário do Senado e foi claro na sua argumentação contra o conjunto de MPs que beneficiam os servidores. E deu o tom de como a oposição se comportará de agora em diante. Ou seja, mais crítica, porém sem se desgastar sozinha em votações polêmicas."O governo editou essa MP no período que antecedeu ao estouro da presente e grave crise mundial, cujas conseqüências ainda não é possível mensurar, no conjunto da economia brasileira. As principais economias do planeta estão revendo suas previsões de crescimento para os próximos anos e algumas já dão como certo o cenário de recessão em que ingressarão por conta dessas turbulências no mercado financeiro global", afirmou Virgílio.O governo, argumentou o senador, deveria "colocar o pé no freio", para se antecipar às incertezas que surgem no horizonte. Ele acrescentou que o Planalto contraria "os mais elementares manuais de economia", ao elevar os gastos com custeio e aumentar a taxa de juros. "Não seremos nós, da oposição, então, a enterrar o pleito dessas categorias de servidores públicos federais. Editar e retirar de tramitação uma medida provisória é prerrogativa do presidente da República. Se ele tem responsabilidade diante da gravidade da crise que se avoluma e se aproxima do País, que tome as necessárias providências. Instrumentos ele tem. A oposição está de plantão para colaborar. Se Sua Excelência considera que dá para arcar com o compromisso assumido sem debilitar a economia brasileira, não seremos nós a governar por ele", disse.Virgílio disse não tolerar a "postura de menor de idade" que o governo assume. "Nós da oposição deveríamos votar contra, porque, supostamente, seríamos responsáveis fiscalmente. Enquanto que eles podem brincar de ciranda, cirandinha, de lero-lero, de brincadeira à vontade, porque, afinal de contas, são menores de idade. Lembra aquela história do primo irresponsável, que começa a bater na nossa tia velha. Quando a gente intervém, a titia fica a favor do primo", ironizou o senador."É um pouco a relação que eu sempre tive ao longo da minha vida com o Partido dos Trabalhadores. Sempre a de um primo mais velho, um primo mais responsável e ele a fazer bobagem, a sair com o carro do pai sem autorização, a quebrar as louças dentro de casa, enfim. Quando a gente resolve dar um puxão de orelha, lá vem a titia e diz: ?Mas ele é coitadinho, ele tem problemas?, enfim, aquela história toda. Eu, então, gostaria de emancipar essa gente de uma vez."

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