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Oposição pelo País

À exceção do PT, centro e centro-esquerda rejeitam a ideia de um terceiro turno

João Domingos, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2018 | 03h00

A eleição de Jair Bolsonaro para presidente da República e tudo o que ela carrega, a exemplo do reforço do conservadorismo nos costumes e da pauta anticorrupção e pró-segurança, trará mudanças profundas na forma de se fazer política no Brasil. À exceção do PT, que pelo menos no discurso vê tudo como parte de uma conspiração maligna, da qual só não participou Satanás, por ser difícil acreditar em tal criatura dos infernos, partidos de centro e de centro-esquerda olham para trás e fazem autocrítica. Por que foram rejeitados?

Foram rejeitados porque perderam a comunicação com o eleitor, porque não souberam usar as novas mídias para passar suas mensagens, porque ficaram presos a velhos hábitos, porque não resistiram à tentação de se agarrar a propostas fundamentalistas para atacar um candidato que, a cada pancada, aumentava sua resistência. E onde estava a grande força de resistência de Bolsonaro? Na comunicação direta com o eleitor, feita pelas redes sociais em mensagens capazes de serem assimiladas pela população, pois em linguagem simples e direta, aquilo que ela queria ouvir. 

Portanto, a depender dos partidos de centro e de centro-esquerda, à exceção do PT, é bom lembrar, não haverá terceiro turno. Estão todos, nesse momento, em busca de um jeito de mudar sua forma de fazer política e se reencontrar com o eleitor. PSB, PPS, Rede, a ala social-democrata do PSDB e alguns emedebistas deram início as conversações que convergem para um ponto: não farão oposição ao governo de Bolsonaro simplesmente por fazer oposição. Naquilo que discordarem, votarão contra; naquilo que concordarem, votarão a favor.

“Não dá mais para jogar contra o Brasil. Se a proposta for positiva, como a independência do Banco Central em alguns setores, para evitar que sua administração seja manobrada pelo governo, vamos votar a favor; se for absurda, como o fechamento do Ministério do Trabalho, vamos votar contra”, diz o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), um dos articuladores da união dos partidos de centro-esquerda e de centro que não aderiram a Bolsonaro. 

Esse movimento não terá um líder. “Rejeitamos quaisquer possibilidades de sermos capitaneados pelo Fernando Haddad (PT), pelo Ciro Gomes (PDT) ou pela Marina Silva (Rede). O que defendemos é um movimento que não tenha chefetes, que pense no Brasil e mostre ao cidadão que nossa preocupação é com o País. Por isso, não rejeitamos o governo de Bolsonaro. Se a proposta for boa, votamos; se for ruim, rejeitamos”. Para Delgado, é preciso respeitar a decisão do eleitor. “Uma maioria considerável de brasileiros aprovou o programa de Bolsonaro e o elegeu. A escolha foi democrática. Bolsonaro não foi imposto pelos generais. Ele foi colocado lá pelo povo. O eleitor não é bobo. Ele deixou seu recado. Errados estávamos nós. Então, vamos nos reencontrar com o eleitor, pensando no Brasil em primeiro lugar”.

Esse despertar por uma oposição construtiva não é o único movimento que toma corpo no Congresso e nos partidos políticos que não se alinharão com o governo de Bolsonaro. Há uma articulação que visa ao início de conversas para se formar o embrião do que no futuro poderá ser um partido de centro com propostas progressistas. Um dos idealizadores da ideia é o ex-ministro e ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo, hoje no Solidariedade, e que teve toda sua formação no PCdoB.

Desde o ano passado Rebelo prega o combate à crise pela criação de um novo e amplo ambiente de forças democráticas que despreze os ressentimentos, as posições preconcebidas, e que busque a unidade. Na eleição presidencial essa unidade não veio, o que resultou na vitória de Bolsonaro. Rebelo busca agora retomar a proposta.

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