Oposição evita adotar discurso anti-Lula no Rio

Por trás da boa vontade com o presidente estão sua popularidade e o investimento de R$ 1 bi na cidade

Wilson Tosta, RIO, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2008 | 00h00

Ninguém quer barulho com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha eleitoral deste ano na cidade do Rio de Janeiro. Além dos candidatos a prefeito de sua base no Congresso, que disputam a primazia do apoio do Palácio do Planalto, Lula terá a seu favor o discurso local e moderado de concorrentes apoiados pelo PSDB e pelo DEM sem apetite para se indispor com o eleitorado lulista, sobretudo nas classes populares. Atrás da boa vontade em relação ao presidente da República estão a sua alta popularidade e o investimento da União de mais de R$ 1 bilhão em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), principalmente em favelas cariocas. O caráter local das eleições é a principal desculpa para ignorar a questão nacional.Até o candidato apoiado pelo PSDB, o deputado Fernando Gabeira (PV), já avisou que, se eleito, pretende ter uma postura de "cooperação total" com os governos federal e estadual, mesmo com a disposição belicosa dos aliados tucanos em relação a Lula no Congresso. Quem mais andou na direção contrária ao Planalto foi o ex-petista Chico Alencar, do PSOL, que se declara da "oposição de esquerda", mas só chega ao ponto de "exigir respeito" do governo federal, "em nome dos 6 milhões de habitantes do Rio", e promete diálogo. A expressão "oposição a Lula" virou palavrão para os políticos que disputarão o Palácio da Cidade, talvez também porque o presidente não poderá se reeleger em 2010 ou por conta do tamanho da derrota que em 2006 deixou atarantados e sem discurso os partidos de oposição."Parece-me que há um cálculo estratégico", diz o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS). "As pessoas avaliam muito bem a parceria de Lula com o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), que trouxe investimentos federais. Os candidatos não querem dar a impressão de que vão quebrar esse clima. É uma parceria inédita no Rio." Para ele, a eleição carioca terá menos condição de ser nacionalizada que a de São Paulo ou a de Belo Horizonte. "Geraldo Alckmin é um ex-candidato a presidente e potencial concorrente em 2010, assim como Marta Suplicy (PT). Em Belo Horizonte, há o ineditismo da aliança PT-PSDB. No Rio, não há interesse de se anunciar de oposição federal." O campo aliado está congestionado no município. Nele, por ora brigam os pré-candidatos do PRB, senador Marcelo Crivella; do PC do B, Jandira Feghali; do PT, a ser decidido, em prévia no dia 30, entre o deputado estadual Alessandro Molon e o ex-deputado Vladimir Palmeira; do PDT, deputado estadual Paulo Ramos. Todos, em maior ou menor grau, alardeiam a intenção de manter boa relação com Lula - um axioma num município comandado há oito anos pelo prefeito Cesar Maia, do DEM, e que teve no casal Garotinho, no governo estadual de 1999 a 2006, um bastião da oposição a Lula. A postura aparentemente "contaminou" os demais concorrentes, ao ponto de Gabeira elogiar os programas sociais de Lula e admitir reaproximação com o PT.Maia diz que no Rio a popularidade do presidente "é a menor do Brasil", mas também não parece disposto a arriscar um discurso anti-Lula na eleição. Ele diz que o espaço da oposição nacional na campanha eleitoral poderá surgir se aparecerem questões nacionais durante a disputa. E minimiza a importância desses temas nas eleições cariocas. "Minha experiência de várias eleições vitorioso no Rio é que é zero", afirma o prefeito. Ainda há, porém, um grande grau de indefinição no quadro eleitoral carioca. Além do PT, que deixou para o próximo domingo a decisão sobre sua candidatura à prefeitura, o PMDB ainda precisa resolver que caminho vai seguir. O partido tem de resolver se vai mesmo apoiar a deputada Solange Amaral, do DEM, dentro do acordo de Maia com o presidente local dos peemedebistas, Anthony Garotinho, ou se vai ceder a Cabral e lançar candidato próprio, o ex-deputado Eduardo Paes. Se essa hipótese se concretizar, será mais um candidato lulista no páreo - no caso, neolulista, já que Paes, nas investigações do mensalão, foi um duro adversário do petismo, o que não impediu o presidente de manifestar simpatia por ele.No almoço de aniversário de Cabral, Lula constrangeu a ex-governadora petista Benedita da Silva, então pré-candidata à prefeitura - ela renunciou há alguns dias -, perguntando-lhe por que não desistia para apoiar Paes. Depois, o Planalto checou a situação do PT na cidade, para apurar a eventual possibilidade de aliança com o PMDB na cabeça de chapa. Ninguém da seção local do partido sustentaria a aliança, no estágio avançado da campanha interna do PT e nas próprias dificuldades de Cabral de emplacar seu candidato no PMDB.FRASESGeraldo Tadeu MonteiroCientista político"Parece-me que há um cálculo estratégico""As pessoas avaliam muito bem a parceria de Lula com o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), que trouxe investimentos federais. Os candidatos não querem dar a impressão de que vão quebrar esse clima. É uma parceria inédita no Rio"Cesar Maia (DEM)Prefeito do Rio"Minha experiência de várias eleições vitorioso no Rio é que é zero" (sobre a importância das questões nacionais nas eleições cariocas)

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