Oposição diz que áudios ligam Yeda a irregularidades do Detran

Oposicionistas afirmam que a governadora tinha conhecimento e se aproveitou da fraude no órgão público

Elder Ogliari, de O Estado de S. Paulo,

17 de setembro de 2009 | 18h51

Sem quorum para votar requerimentos, os quatro deputados de oposição usaram mais uma sessão da CPI da Corrupção para ouvir e tornar públicos áudios obtidos da Justiça que, segundo eles, indicariam que a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), tinha conhecimento e se aproveitou da fraude que desviou R$ 44 milhões do Detran entre 2003 e 2007, nesta quinta-feira, 17.

 

Duas das quatro conversas ouvidas são diálogos entre o empresário Lair Ferst, réu da ação penal da caso Detran, e Marcelo Cavalcante, ex-representante do governo do Rio Grande do Sul em Brasília, morto em fevereiro deste ano.

 

Em trechos delas, Cavalcante relata ter entregado uma carta que o empresário escreveu a Yeda descrevendo irregularidades no Detran e se dizendo alvo de pessoas corruptas e dá a entender que a dificuldade que a governadora teria para tomar providências decorria da necessidade de não complicar as relações com partidos da base aliada. Também conta ao interlocutor que recebeu um pedido de Yeda para não deixá-lo desamparado.

 

Pelo áudio captado, Lair Ferst afirma que yeda sabia do esquema de corrupção: "Eu relatei pra ela (Yeda): 'olha governadora, vai ocorrer um escândalo no seu governo, se a senhora não agir rapidamente isso vai se tornar público... o que tá acontecendo é irregular... tão sacando dinheiro vivo na boca do caixa... em quantidades assim... Alarmantes...'. E ela disse: 'olha Lair, o negócio é o seguinte, é muito complicado isso porque isso envolve os partidos... e eu não quero me incomodar com os partidos...' Aí ela disse: 'não, ainda é o seguinte ó, vieram me falar aqui que vão me dar cinquenta mil por mês. Eu já disse ó, cinquenta mil eu não quero. Eu não vou me incomodar dessa maneira aí por cinquenta mil. Se for pra ganhar só cinquenta mil eu vou acabar com tudo. Porque pelo que eu tô sabendo parece que eles tão recebendo muito dinheiro.'"

 

CPI do Detran

 

No ano passado, durante a CPI do Detran, à qual não compareceu, Cavalcante disse à imprensa que não havia entregado a correspondência a Yeda porque o relato feito por Ferst não estava acompanhado de provas.

 

Em outro trecho das conversas, Ferst conta a Cavalcante que foi informado por Flávio Vaz Neto, ex-presidente do Detran e também réu da ação penal, a informação de que houve um acordo para distribuição de valores e que "tinha ficado acertado que a parte da governadora seria cento e setenta mil reais". E novamente referindo-se à governadora afirma que ela "ou tá refém ou tá gostando de receber essa grana aí que está entrando".

 

Além das conversas entre Cavalcante e Ferst que o próprio empresário entregou ao Ministério Público Federal os parlamentares também ouviram dois grampos feitos pela Polícia Federal em maio do ano passado. Num dos diálogos, Vaz Neto comenta com o também réu Antônio Dorneu Maciel que "eles (os deputados da CPI) estão chegando perto" e "chegando nos caras aí que mexeram com o dinheiro da campanha dela".

 

No outro, Vaz Netto pede que o assessor do PP na Assembleia, Sergio Araújo, peça que o presidente da CPI do Detran, Adilson Troca (PSDB) retorne suas ligações e, em caso negativo, ameaça retornar à comissão para contar o que não havia revelado num depoimento que já havia prestado, inclusive como teria sido pressionado por Delson Martini, secretário-geral de governo, para resgatar Ferst para produzir dinheiro para pagar as contas do PSDB e para pagar contas pessoais da governadora.

 

"O que ouvimos hoje indica fortemente o envolvimento da governadora", comentou, ao final da sessão, a presidente da CPI Stela Farias (PT). Como os oito aliados de Yeda estão boicotando as reuniões, foram provocados pelos participantes a aparecerem para ajudar a esclarecer a verdade.

 

Os aliados do governo seguem exigindo que a presidente da comissão, Stela Farias (PT), coloque em votação um plano de trabalho elaborado por Coffy Rodrigues (PSDB) para voltar às reuniões. Também afirmam que as provas que estão sendo acessadas pela minoria oposicionista não têm valor formal porque foram obtidas da Justiça em nome de Stela e não da CPI. A oposição entende que a organização das atividades cabe à presidência e não ao relator.

 

O deputado Adilson Troca (PSDB) disse que não atendeu os telefonemas de Vaz Netto à época da CPI do Detran porque, como relator, não conversava reservadamente com indiciados pela Polícia Federal.

 

O advogado de Yeda, Fábio Medina Osório, afirma que as gravações ouvidas pelos deputados já foram analisadas pela juíza federal Simone Barbisan Fortes, que negou o bloqueio de bens da governadora pedido pelo Ministério Público Federal e não viu nelas força vinculante para evidenciar relações do governo com os fatos.

 

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