Gilberto Abelha/Jornal de Londrina
Gilberto Abelha/Jornal de Londrina

'Operação Voldemort' no Paraná investiga parente do governador

Ministério Público tenta desvendar laços de poder do empresário Luiz Abi Antoun, 'parente distante' de Beto Richa, citado em denúncia de contratos do governo

CATARINA SCORTECCI / CURITIBA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2015 | 02h02

Há meses enfrentando problemas financeiros, e ainda desgastado depois de uma das maiores greves de professores da história do Paraná, o governador Beto Richa (PSDB) agora tenta se desvencilhar do empresário Luiz Abi Antoun.

Apontado tanto por opositores quanto por governistas como uma das figuras mais influentes da gestão tucana mesmo sem ter cargo público, Abi foi denunciado na sexta-feira pelo Ministério Público como o "líder" de um esquema criminoso montado para obter um contrato de R$ 1,5 milhão entre a empresa Providence Auto Center e o Departamento de Transporte Oficial do Estado.

O órgão, conhecido pela sigla Deto, está ligado à Secretaria da Administração e Previdência. Titular da pasta, Dinorah Botto Portugal Nogara também é citada na investigação - seu caso será analisado pelo Tribunal de Justiça em razão do foro privilegiado.

Abi é parente do governador - ou "parente distante", como prefere o político tucano. A atuação do empresário nos bastidores ajudou a batizar a operação que investiga o contrato sob suspeita: Voldemort, uma alusão ao temido personagem da famosa série Harry Potter. Nos livros de J. K. Rowling, Voldemort é "aquele que não deve ser nomeado".

O contrato emergencial entre a Providence e o Deto foi homologado em janeiro, início do segundo mandato de Richa, e vigoraria por 180 dias, mas foi suspenso pelo governo após o escândalo vir à tona. A empresa foi chamada para serviços de manutenção da frota de veículos oficiais na região de Londrina, no interior do Paraná.

Segundo as apurações, o principal sócio da Providence, Ismar Ieger, atua como "laranja" de Abi. Sua empresa seria comandada por meio da KLM Brasil, localizada ao lado da sede da Providence, na cidade de Cambé. De acordo com registro na Junta Comercial do Paraná, a KLM Brasil tem hoje como sócios a mulher de Abi, Eloiza Fernandes Pinheiro Abi Antoun, e dois filhos do casal. Eloiza é vice-presidente da telefônica londrinense Sercomtel. Ela foi indicada para o cargo pela Companhia Paranaense de Energia (Copel), estatal que é sócia da companhia telefônica.

Para o Ministério Público, todo o procedimento que levou à contratação da Providence pela gestão Richa foi fraudado. Para viabilizar o acordo emergencial, no fim de 2014, o Deto teria apresentado duas cotações falsas de preços, com valores propositalmente superiores aos apresentados pela Providence.

Abi ficou preso entre os dias 16 e 23 de março. Foi liberado após seus advogados obterem um habeas corpus no Tribunal de Justiça do Estado.

Receita. A Operação Voldemort está ligada a outras investigações em Londrina, terra do doleiro Alberto Youssef, pivô da Operação Lava Jato. Uma delas, que trata de corrupção na Delegacia da Receita Estadual, causou o indiciamento de 23 pessoas na quinta-feira. Entre os suspeitos estão sete auditores fiscais, além de empresários e um policial civil.

Os servidores da Receita estadual teriam cobrado propina de empresários da cidade durante décadas. Segundo as investigações, os valores da propina giravam em torno de R$ 200 mil, mas um dos fiscais chegou a pedir R$ 1 milhão para um empresário. Do grupo de suspeitos, três passaram pela chefia da unidade em Londrina: os servidores de carreira José Luiz Favoreto Pereira, Dalton Lázaro Soares, ambos presos, e Márcio de Albuquerque de Lima, tido como foragido.

Favoreto foi exonerado do cargo de delegado-chefe da Receita Estadual em Londrina em fevereiro, três dias antes de deflagrada a operação do Ministério Público que o levou para a prisão. O mesmo aconteceu com Lima, parceiro de automobilismo do governador, que todo ano corre as "500 Milhas de Londrina". Ele era inspetor-geral da Receita Estadual, em Curitiba, e também foi exonerado do cargo três dias antes da operação contra fraudes na Receita.

Depoimentos prestados ao Ministério Público mostram que um dos órgãos nos quais Abi tinha trânsito livre era a Delegacia da Receita em Londrina. Nesse caso, Abi não foi indiciado. "As influências em si são de pouca importância jurídica. Politicamente podem ser importantes. Mas, para nós, só interessa se houver ilicitudes nesse comportamento. Estamos investigando", afirma o procurador Leonir Batisti, coordenador estadual do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público.

Laços antigos. Entre maio de 2000 e janeiro de 2001, Abi, hoje com 59 anos, foi assessor parlamentar no gabinete do então deputado estadual Beto Richa. Em 2008, o empresário se tornou alvo de uma ação popular que o acusava de continuar recebendo salário mesmo após Richa ter se tornado vice-prefeito de Curitiba, em janeiro de 2001. A ação, proposta pelo advogado Antonio Carlos Ferreira, ainda tramita na 4.ª Vara da Fazenda Pública da capital paranaense.

O Ministério Público chegou a entrar no caso, mas arquivou a apuração quando, em 2008, o então presidente da Assembleia Legislativa do Estado, Nelson Justus (DEM), disse que a presença do nome de Abi na folha de pagamento de um gabinete que já não existia mais e era apenas um erro administrativo. Segundo a versão oficial, Abi foi transferido para gabinetes de outros deputados tucanos.

Até 2010, quando estourou na Assembleia um grande escândalo de desvio de dinheiro por meio da contratação de centenas de funcionários laranjas e fantasmas, os atos de nomeação e exoneração dos servidores não ganhavam a publicidade devida.

Abi também trabalhou em campanhas eleitorais de Richa e fez doação ao tucano, conforme registro no Tribunal Superior Eleitoral. Em 2008, quando Richa disputava a prefeitura de Curitiba, sua campanha recebeu R$ 2 mil de contribuição do empresário. A KLM Brasil, da mulher de Abi, também integra a composição societária da Alumpar Alumínios, empresa que doou R$ 100 mil à campanha do governador à reeleição, no ano passado.

A despeito do histórico, Richa afirma que mantém apenas "relações sociais" com seu "parente distante". "Tentam colar essa situação (de laços familiares com Abi), mas, até pelo Código Civil, é um parentesco tão distante que não é nem considerado parente", disse Richa na única vez que falou com a imprensa sobre o assunto, durante agenda pública, em 20 de março. "Toda denúncia que tenha consistência deve ser investigada. E, havendo culpados, que sejam responsabilizados, quem quer que seja", afirmou o governador na ocasião.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.