Operação Condor preocupa militares da reserva

A tentativa de reabrir discussões sobre questões do passado como a Operação Condor, que consistia em um acordo secreto entre os países do cone sul para buscar militantes de esquerda, não trouxe mais preocupações entre os militares da ativa, mas desagradou muito dos militares da reserva. No Exército, o assunto nem sequer foi tratado de forma mais detida, embora os oficiais sempre lembrem que houve anistia, que deveria ter valido para os dois lados. Também no Planalto, não houve maiores preocupações com o tema que não foi tratado pelos escalões mais elevados ou é objeto de estudo pelo Gabinete de Segurança Institucional, que se limitou a tomar conhecimento das notícias sobre a divulgação dos documentos pelo governo norte-americano. Há expectativa na área militar, no entanto, que o pessoal que viveu naquela época possa elaborar cartas ou manifestos, repudiando o fato de estarem remexendo no passado. O tema poderá ainda ser tratado informalmente no 1º Fórum Democrático Nacionalista, a ser realizado esta semana, em Brasília. O ex-senador e coronel da reserva Jarbas Passarinho, que participou do governo militar, informou que, na época em que integrava a equipe governamental, desconhecia a operação. Ele contou, no entanto, que tomou conhecimento da troca de dados entre as áreas de informações dos governos de Brasil e Argentina anos depois, quando já estava no Senado Federal. Para o senador, que será um dos palestrantes amanhã no fórum, esta é uma tentativa de reviver um passado, esquecendo-se que houve anistia. "Parece que só o nosso lado anistiou. Do outro lado não houve anistia", desabafou Passarinho, ressaltando que não acredita que a discussão desse tema na Argentina possa incentivar algumas pessoas a ingressarem na Justiça brasileira para reviver aqueles fatos. Passarinho lembrou ainda que a Operação Condor mostra que a busca de proteção internacional não era um instrumento usado só pela direita. A esquerda também se protegia internacionalmente e a prova disso é que, quando alguém ligado à esquerda se via perseguido, buscava apoio em outro país, e muitos foram acolhidos, como o próprio presidente Fernando Henrique, que foi para o Chile e para a França, e o candidato do PSDB, José Serra, que foi para o Chile. Militares consultados hoje ressaltaram ainda que não acreditam em maiores manifestações por causa da remexida na Operação Condor. Para eles, essas marcas foram muito mais fortes na Argentina que no Brasil. Na Argentina, as Mães da Praça de Mayo reclamam por seus filhos desaparecidos durante o regime militar. Estes mesmos militares salientam ainda que, além da anistia propriamente dita, houve a concessão de indenizações a várias famílias, que acabaram estendidas para atender a vários pleitos políticos, o que ameniza o ressurgimento de possíveis discussões sobre a operação.

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