ONU enviará ao Brasil missão para investigar trabalho escravo

Ministro Vanucchi admitiu que o número de vítimas de trabalhos escravos é maior do que governo estimava

Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2009 | 17h30

A ONU enviará em junho uma missão para investigar a questão do trabalho escravo no Brasil e o setor do etanol estará no centro da atenção da entidade. A relatora da ONU para o assunto, Gulnara Shahinian, avaliará a situação do País em uma visita de dez días em várias cidades e regiões e fará uma relatório com sugestões que o governo deve seguir.

 

Ontem, o ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, admitiu que o número de pessoas vítimas de trabalhos escravos é maior do que o próprio governo estimava. "Trabalhávamos com o número de 25 mil pessoas vitimas desse problema. Mas esse número estava errado, já que só as liberações realizadas pelos inspetores de trabalho foram superiores", disse.

 

Fontes na Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Genebra estimam que o número é bem maior que os 25 mil, mas afirma não ter condiçoes de divulgar suas avalições. Além disso, admitem que o governo tem tentando impedir que um novo número - mais elevado - seja divulgado.

 

Um dos pontos que será avaliado pela ONU é a situação do trabalho escravo no campo, principalmente na produção de cana-de-açucar. Países ricos, em especial da Europa, vem pressionando para que selos sociais sejam estabelecidos no comércio do etanol, o que é rejeitado pelo Brasil.

 

Vannuchi acredita que, mesmo assim, os número de pessoas vivendo em uma situação análoga a escravidão está caindo. Ele, porém, não dá números dessa queda. O governo brasileiro ainda tenta coordenar uma política com Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia para tentar lidar de forma coordenada com o problema.

 

Dados da Comissão Pastoral da Terra apontam que o ano de 2008 registrou o maior número de denuncias sobre trabalho escravo, desde que a entidade iniciou o trabalho de registrar o problema, há 14 anos. No total, 280 denúncias foram registradas.

 

No mesmo ano, 5,2 mil pessoas foram liberados de condições de escravidão. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, 48% deles estavam no setor sucroalcooleiro. Em 2007, 5,9 mil pessoas foram liberadas.

 

Segundo dados do próprio governo, 2,4 milhões de criancas estão ainda trabalhando, o que representa 4% da população infantil. Já o Ipea aponta que, mesmo mais de um século depois do fim da escravidão, a renda da população negra ainda é inferior a media nacional. Segundo os cálculos do IPEA, levará ainda 32 anos para que os negros tenham o mesmo nível de renda que brancos no Brasil. Isso se o ritmo de avanço continuar nas mesmas taxas dos últimos cinco anos.

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