ONGs criticam respostas genéricas

Representantes de organizações dizem que, assim, ficam sem elementos para cobrar candidatos

Roldão Arruda, de O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2010 | 01h31

Convidados pelo Estado para assistir ao debate de ontem, representantes de quatro organizações da sociedade civil criticaram a ausência da candidata do PT, Dilma Rousseff, e falta de objetividade dos três candidatos participantes na apresentação de propostas. As quatro entidades convidadas participaram do movimento pela aprovação da Lei da Ficha Limpa.

 

"Eles falam de forma genérica, sem deixar claro o que é de fato possível fazer com os recursos e o tempo disponível. Deixam o eleitor sem elementos para poder cobrá-los no futuro", disse o advogado Jorge Sanchez, presidente da Amigos Associados de Ribeirão Bonito (Amarribo), organização que congrega cerca de 200 entidades dedicadas à fiscalização de órgãos públicos do Executivo e do Legislativo.

 

"Perdem muito tempo falando do que fizeram, discutindo a corrupção de forma genérica, mas deixam de apresentar propostas objetivas para combatê-la", endossou Luciano Santos, que também é advogado, especialista em direito eleitoral, e diretor do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.

 

Logo na abertura do debate, quando foi confirmado que Dilma não participaria, as reações de desagrado foram unânimes. "O debate é um instrumento democrático. Ela pode ter razões do ponto de vista do marketing eleitoral, mas prejudica os eleitores, que ficam sem condições de avaliar suas propostas e compará-las com as de outros candidatos", afirmou Roberto Livianu, promotor de justiça e presidente do Movimento do Ministério Público Democrático.

 

A educadora Rosângela Torrezan Giembinsky, vice-diretora do Movimento Voto Consciente, foi ainda mais taxativa: "Não faz sentido não participar. O debate é um momento autêntico, fora do mundo cor de rosa da propaganda eleitoral. É o que o cidadão mais quer ver."

 

Ao fim do debate, os quatro participantes manifestaram insatisfação com o desempenho geral dos candidatos. Embora tenham achado importante levantar o tema da violação de dados sigilosos da Receita Federal, criticaram o denuncismo e a falta de propostas objetivas para combater esse problema e, de maneira geral, a corrupção eleitoral. Uma das poucas intervenções elogiadas nesta área foi feita pela candidata do PV, Marina Silva.

 

"Ela conseguiu elevar um pouco o nível do debate quando começou a falar das providências que podem ser tomadas para combater a violação de dados e a corrupção, destacando sobretudo o seu compromisso com a transparência na administração pública", observou Rosângela.

 

"A transparência é fundamental e é bom ver quando algum candidato começa a assumir compromissos nessa área, embora não tenha feito isso de forma detalhada", completou o promotor Livianu. "O José Serra perdeu uma excelente oportunidade quando apresentaram esse assunto de bandeja para ele. Poderia ter apresentado propostas de proteção do patrimônio público, em vez de ficar insistindo na mesma denúncia de violação de dados sobre a qual tanto já se falou."

 

Fichário

 

A intervenção de Serra, nessa ocasião, provocou risos entre os participantes, por ter usado a expressão "fichário de bandidos", ao se referir à falta de equipamentos e recursos das polícias nos Estados. Segundo os analistas convidados, ele poderia usado a expressão "banco de dados". Segundo Sanches, da Amarribo, a maioria dos adolescentes que vão votar pela primeira não utiliza mais o termo fichário.

 

Uma das poucas intervenções elogiadas foi a do candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, quando apresentou dados sobre a violência, educação, habitação e saneamento. "Foi um choque realidade no meio de um debate de generalidades", afirmou Sanchez.

 

Nos comentários finais, ao redor da mesa na Redação do jornal, os quatro participantes disseram que seria melhor para os eleitores se os debates fossem organizados por temas. Na pior das hipóteses, que os blocos fossem divididos por assuntos específicos. "Do jeito que está sendo realizado, ninguém consegue saber o que os candidatos estão propondo. Alguém saberia dizer, por exemplo, a partir desse debate, qual é a proposta específica de cada um deles para a educação? É impossível", observou Livianu. "Alguém sabe como eles vão combater a corrupção? Do jeito que falam, parece até que é possível eliminar a corrupção com medidas improvisadas a qualquer hora."

 

O candidato do PSOL foi o mais elogiado pelos debatedores, pela sua objetividade e disposição para debater com os outros participantes. Na opinião deles, Plínio conseguiu armar uma verdadeira saia-justa para o candidato do PSDB quando indagou por que ele usou imagens de Lula no horário da propaganda gratuita eleitoral, ao mesmo tempo que evitou expor o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que é do mesmo partido dele. "O Serra deveria sair dali e cobrar explicações muitas explicações de seu marqueteiro, porque a apresentação do Lula no programa do PSDB foi um erro grosseiro, que não ajuda o eleitor a entender com clareza as diferentes propostas de governo que estão sendo apresentadas a ele", assinalou Santos.

 

Nota só

 

Eles criticaram Marina, do PV, por não conseguir expor de maneira clara um programa amplo de governo. "Como já se disse, ela parece candidata de uma nota, a candidata do meio ambiente. Às vezes parece até uma missionária", disse Santos.

 

Os debates podem ser uma excelente oportunidade para os candidatos convencerem os eleitores de suas propostas, na avaliação dos convidados. Mas eles ainda precisam aprender a apresentá-las de forma mais clara e objetiva. "Não quero acreditar que Serra, Marina e Plínio não tenham planos de governo. Apesar disso, não vida nada disso no debate."

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