ONG quer tratar verminose e anemia em 2 milhões de crianças

A Inmed Brasil, uma organização não governamental com origem nos Estados Unidos, pretende nos próximos cinco anos cuidar de 2 milhões de crianças brasileiras com verminoses e anemia. A entidade atua no País desde 1994 e já conseguiu levar o tratamento para 350 mil crianças de várias regiões com o projeto Crianças Saudáveis, Futuro Saudável. Por meio dele, a entidade promove não apenas o tratamento, mas a conscientização da população sobre ações de higiene básica, organizando um programa de educação sanitária para combater as verminoses que serviu de modelo para outros países onde a ONG atua, como México, República Dominicana, Burkina Faso, Chile, Equador, Bolívia, Guatemala, Honduras, Filipinas e Índia.Segundo estimativas da Inmed, cerca de 30 milhões de crianças no Brasil teriam doenças decorrentes de vermes. A Organização Mundial da Saúde calcula que mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo estejam infectadas por algum tipo de verme ou parasita. As infecções parasitárias intestinais são vinculadas à morte de 135 mil pessoas por ano, ainda de acordo com a OMS. Os cálculos da entidade apontam que entre 40% e 45% das crianças em idade escolar (de 5 a 14 anos) nas cidades e 90% das que vivem em áreas rurais nessa faixa etária são atingidas por esse problema.As parasitoses podem comprometer o desenvolvimento físico e mental das crianças. Levam à perda de resistência, baixa auto-estima, anemia, desnutrição e até a morte. Os vermes podem provocar perda de apetite, diarréia, sangramento do aparelho intestinal e urinário, redução na função da memória e deficiência no crescimento. "As parasitoses estão ligadas diretamente à falta de saneamento básico, de coleta de lixo e de água tratada", afirma Joyce Capelli, vice-presidente e diretora executiva da Inmed Brasil. "Uma criança que cresceu nessas condições será menos capacitada quando adulta e isso não se recupera porque o crescimento da pessoa se dá nessa fase", comenta.O primeiro passo da Inmed é descobrir a incidência de parasitoses numa população. Se os exames de sangue e fezes do grupo escolhido como amostra indicar que mais de 25% das crianças têm vermes, índice estabelecido pela OMS, é feito um tratamento para todas as crianças. "Nesses casos, a recomendação é de que se diminua o grau de infestação na comunidade como um todo, mesmo naquelas em que não foi feito o exame", acrescenta.A Inmed faz uma pesquisa para detectar os hábitos e o conhecimento dos pais e das crianças sobre as verminoses. "Há muitos mitos em torno do assunto, alguns acreditam que já se nasce com vermes, outros pensam que eles têm asas, outros dizem que apenas as fêmeas fazem mal à saúde", enumera. Também é avaliada a presença e o conhecimento sobre a anemia, doença que pode estar associada à presença de vermes.A partir daí começa uma campanha educacional com as crianças e o treinamento de professores, merendeiras e agentes comunitários para aumentar a conscientização sobre a necessidade de hábitos de higiene básicos, como lavar as mãos antes das refeições, lavar e preparar bem os alimentos de consumi-los, beber água filtrada ou fervida, manter a casa e o terreno ao redor limpos, andar calçado, entre outras. A Inmed tem uma equipe fixa de 25 pessoas, mas trabalha em parceria com universidades, empresas e poder público, principalmente as secretarias de educação e saúde municipais e estaduais, além de contar com voluntários. A ONG treina e contrata uma pessoa da comunidade para gerenciar o projeto, que atualmente é tocado em sete estados, 13 cidades e atinge 85 mil crianças de 130 escolas.A empresa Janssen-Cilag Farmacêutica do Brasil, parceira da Inmed desde 94, fornece o remédio, o mebendazol, para o tratamento das verminoses. A Colgate Palmolive fornece material educativo e kits para higiene bucal. A Sight and Life oferece os suplementos de vitamina A. Outras empresas trabalham ou já estiveram juntos com a Inmed, como a Johnson & Johnson, Monsanto, Nestlé, Aché Laboratórios, El Paso Amazonas, Termonorte, Fundação Padres Palotinos, Nortel e AT&T. Tirando o preço dos tratamentos, o investimento feito por criança pelo projeto é de US$ 5, verba que vem dos patrocinadores. Em cada local, o projeto dura no mínimo três anos. Os exames de sangue e fezes são pagos pela ONG em municípios que não têm universidades. Em outras cidades, são feitos convênios com universidades e institutos, como a Universidade de São Paulo, Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Adolfo Lutz, entre outros.As crianças são orientadas a fazer trabalhos, como desenhos, textos, peças de teatro, e a pesquisas os hábitos de higiene das suas famílias, tornando-se mini-agentes para as famílias. Com isso, toda a comunidade adquire maior conscientização do problema e cobra do poder público as soluções para saneamento básico. Na cidade de Goiatuba, em Goiás, as crianças deram o exemplo. "Elas perceberam que a coleta de lixo era feita apenas uma vez na semana. Os alunos juntaram um monte de lixo numa pilha, chamaram a administração local e a coleta passou a ser feita três vezes por semana depois disso", conta. A repetência dos alunos em diversas cidades também diminuiu porque eles deixaram de faltar nas aulas por causa do combate às doenças. "O desempenho escolar melhorou muito também", destaca.

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