ONG e deputado querem explicação para morte de testemunha

O presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, Jair Krishke, lançou suspeitas sobre as circunstâncias da morte da testemunha que estava sob a guarda do Programa Estadual de Proteção, Auxílio e Assistência a Testemunhas Ameaçadas (Protege). "Desde Vladimir Herzog, qualquer suicídio por enforcamento, de alguém sob custódia do Estado, nos remete à necessidade de investigar profundamente a ocorrência", disse. Krishke acha muito estranho que o caso só tenha sido revelado na última segunda-feira, 22 dias depois da morte de Márcia de Lima Nunes, de 19 anos, que estava sob proteção policial por ter denunciado uma rede de prostituição de adolescentes e tráfico de drogas.Adversário do PT e severo crítico da administração Olívio Dutra, Krishke ressalta que a sociedade precisa ser esclarecida com argumentos convincentes. Sua posição no caso assemelha-se à do deputado federal Marcos Rolim, que também entende que a perda de uma testemunha deve ser tornada pública para que o programa possa ser reavaliado. Rolim, no entanto, não tem dúvida de que Márcia enforcou-se no banheiro de uma apartamento em Porto Alegre, na madrugada de 1º de abril, enquanto a sala era guardada por uma policial militar.Em sua defesa, a Secretaria de Justiça e Segurança lembra que o inquérito policial começou logo depois do suicídio e que suas conclusão, prevista para a próxima quarta-feira, vai fornecer os esclarecimentos necessários. O trabalho do delegado Jerônimo Pereira foi acompanhado por um promotor de Justiça. Os laudos do Departamento Médico Legal concluem que a morte foi por asfixia mecânica auto-infligida, e que não havia sinais de luta ou violência no local.Mesmo que as investigações comprovem o suicídio, tanto Krishke como Rolim entendem que houve falha no acompanhamento de Márcia. Durante o tempo que ficou sob proteção do programa, ela não viu o filho pequeno, que havia deixado com a avó paterna. Há poucos meses, levada para uma instituição de menores no interior do Rio Grande do Sul, Márcia brigou, foi transferida e fugiu. Alertado, o Protege acionou a polícia, que encontrou a jovem machucada, possivelmente vítima de uma agressão não esclarecida. Instalada num apartamento da capital em 8 de março, ficou isolada até o dia de sua morte.EstatísticasA crise gerada por outra denúncia de Rolim, de que a Secretaria de Justiça e Segurança não tem dados confiáveis sobre a violência no Estado, abrandou-se nesta sexta-feira. O deputado federal admitiu que não dispunha de números e que havia criticado apenas a falta de informação, à imprensa, de uma mudança de método na apuração dos homicídios no Rio Grande do Sul. O levantamento passou a desconsiderar os homicídios culposos (não intencionais). Comparados com os dados de governos anteriores, que incluíam o item, os números se tornavam favoráveis ao governo atual. Mas a própria secretaria suspendeu a divulgação dos dados no ano passado. Hoje foram informados exclusivamente as taxas de homicídios dolosos ocorridos desde 1997. A relação de ocorrências por grupos de 100 mil habitantes variou de 14,47% (1997) para 11,41% (98), 10,78% (99), 11,17% (2000) e 11,12% (2001).

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