Onda de seqüestros dos anos 60 e 70 preocupou Cuba, revela CIA

Relatório da agência de inteligência dos EUA diz que havia temor de reação contra diplomatas cubanos no Brasil

Wilson Tosta, RIO, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2029 | 00h00

Seqüestros de diplomatas por guerrilheiros brasileiros no fim da década de 60 e início dos anos 70 estimularam na América Latina, à esquerda e à direita, uma onda de ações semelhantes com tal intensidade que até Cuba temeu ter representantes no exterior seqüestrados, revela documento da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês).Embora recebesse, como heróis, presos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, a administração cubana avisou suas representações diplomáticas que "não poderia nem deveria aceitar uma troca de qualquer tipo se um servidor diplomático de Cuba fosse seqüestrado". Ironicamente, alguns seqüestradores tinham treinamento na ilha, mas a preocupação dos cubanos era outra: o anticastrismo."Quando 13 dos 15 prisioneiros trocados pelo embaixador Elbrick voaram para Cuba a partir do México, foram recebidos no aeroporto por Fidel Castro", diz a CIA no texto, um memorando de inteligência coordenado pelo Gabinete de Estimativas Nacionais e Serviço Clandestino da agência de inteligência americana, de 7 de abril de 1970, intitulado O seqüestro como tática terrorista na América Latina. "Desde então, embora o governo cubano tenha continuado a dar ampla publicidade aos seqüestros, também começou a se preocupar com a vulnerabilidade de seus próprios diplomatas a ataques de exilados cubanos interessados em libertar prisioneiros anti-Castro em Cuba", completou o documento.Outra ação da guerrilha brasileira - o seqüestro do cônsul-geral do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), em 1970 - deu dimensão maior ao problema da ação de seqüestradores de diplomatas na América Latina, segundo o texto. "Muitos observadores acreditavam que um sentimento antiamericano subterrâneo fora um fator-chave nos incidentes", aponta o relatório. "Com o seqüestro do (cônsul) japonês, nenhum funcionário estrangeiro em nenhum país da América Latina poderia se sentir completamente seguro (...)." A onda de seqüestros provocou o surgimento do termo "diplonaping", mistura de diplomacy (diplomacia) com kidnapping (seqüestro). O documento foi enviado ao repórter, com outros seis textos, em resposta à solicitação com base no Freedom of Information Act dos EUA.Uma parte considerável do material, porém, foi censurada, com tinta preta, para supostamente proteger interesses americanos ou informações que, para os EUA, não podem ser publicadas.DIPLOMATASO seqüestro de Elbrick completará 38 anos em 4 de setembro. Um dos participantes foi o atual ministro da Comunicação Social, Franklin Martins. Já o de Oguchi resultou na libertação de cinco presos, um deles o guerrilheiro Chizuo Osawa, o Mário Japa. Ele fora detido depois de sofrer um acidente de carro. A VPR temia que, sob tortura, revelasse informações estratégicas da organização, entre elas a localização da área de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira (SP)."Desde o fim dos anos 50, terroristas latino-americanos cometeram seqüestros como meios de criar problemas para os governos ou obter dinheiro", diz o memorando. "Foi somente no último ano e meio, contudo, que diplomatas estrangeiros foram detidos e aprisionados, para troca por prisioneiros. Desde o seqüestro do embaixador Elbrick no Brasil em setembro último, cinco outros diplomatas - dois dos Estados Unidos - foram seqüestrados." Na série de ataques, o ministro das Relações Exteriores da Guatemala foi morto e, na Argentina, terroristas de direita tentaram seqüestrar o adido comercial da então União Soviética em Buenos Aires. TRECHOS"Embora o governo cubano tenha continuado a dar ampla publicidade aos seqüestros,também começou a se preocupar com a vulnerabilidade de seus próprios diplomatas a ataques de exilados cubanos interessados em libertar prisioneiros anti-Castro em Cuba""Muitos observadores acreditavam que um sentimento antiamericano subterrâneo fora fator-chave nos incidentes"

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