Ofício indica que Reitoria da USP ajudava a repressão

Documento revelado pela Comissão da Verdade de São Paulo dava detalhes sobre evento de direitos humanos na universidade

Isadora Peron - O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2013 | 22h46

A Comissão da Verdade de São Paulo apresentou nesta sexta-feira, 20, um documento que aponta o envolvimento da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) com os aparelhos de repressão do regime militar brasileiro (1964-1985).

O ofício em questão foi enviado pela USP aos órgãos de espionagem da ditadura, como o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), em 1º de dezembro de 1975, e dava detalhes sobre a Semana dos Direitos Humanos que aconteceu de 10 a 15 de novembro daquele ano.

O documento registrava o nome dos palestrantes, como os professores Dalmo Dallari (Direito), Francisco de Oliveira (Economia e Administração) e Carlos Guilherme Motta (Filosofia). Também fazia uma relação dos centros acadêmicos que haviam organizado o evento, como o da Faculdade de Direito e de Medicina.

Segundo o coordenador da Comissão estadual, Ivan Seixas, na USP atuava uma Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI), responsável por repassar informações ao governo autoritário.

Seixas afirma ainda que, com base na documentação levantada, é possível constatar que não havia os "porões da ditadura", mas sim uma estrutura de repressão política que se espalhava por toda a sociedade e obedecia a uma ordem de comando.

A audiência de ontem foi acompanha pela advogada Rosa Cardoso, membro da Comissão Nacional da Verdade. Pela manhã, o grupo ouviu o depoimento do historiador americano Kenneth Serbin, que estudou a relação entre a Igreja Católica e as Forças Armadas durante o regime militar no Brasil.

Para Serbin, as comissões da verdade deveriam ter sido criadas na década de 1990, pois agora, mais de 25 anos depois, teriam condições de trazer poucos resultados concretos. "As comissões da verdade chegaram tarde demais (ao Brasil). Deveriam ter sido feitas nos anos 90. Com o tempo, o povo começa a esquecer o que foi o regime militar", afirmou. "Olhando como historiador, acho que demorou demais."

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