Oficiais atacam coronel que defendeu prisão de PM bolsonarista

Coronel Glauco defendeu a punição de Aleksander Lacerda, que convocou os colegas para os protestos do dia 7 de Setembro

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 10h19

Caro leitor,

 

Os militares que se queixam do Supremo Tribunal Federal (STF) têm sempre o argumento das decisões que anularam as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva para questionar a atuação do órgão. É fato que o Supremo decidiu que o ex-juiz Sérgio Moro agiu com parcialidade. Sem decidir sobre o mérito das provas, analisou a legalidade com que foram obtidas e acreditou que um magistrado que se tornara ministro do maior inimigo político do petista não poderia ser considerado isento. Ou seja, o convite feito por Jair Bolsonaro – e aceito por Moro – ajudou a  definir o voto dos ministros do Supremo. Bolsonaro ressuscitou Lula.

Os militares então perguntam: mas e os milhões devolvidos pelos réus da Lava Jato? Ninguém devolveria o que não roubou. E a delação de Antonio Palocci? Ou vai se apagar tudo o que se descobriu? Todas essas decisões fundamentam o descontentamento de muitos oficiais bolsonaristas com o Supremo. Não ocorre a nenhum deles citar as decisões que beneficiaram Flávio Bolsonaro. O mesmo Supremo que livrou Lula também mantém parados os casos do filho rico do presidente, apesar dos indícios e testemunhas que mostram a possível ligação entre os gabinetes da família no esquema de desvio de salários de assessores. 

O Supremo que decide sobre os Bolsonaro é o mesmo que decide sobre Lula ou sobre o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) ou sobre o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). É a mesma Corte que prende quem ameaça a democracia e fornece habeas corpus a militares e a bolsonaristas investigados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)  da Covid a fim de que permaneçam em silêncio diante das perguntas dos senadores. Enfim, o bolsonarismo ataca o Supremo pelos maus motivos. Ele o faz porque deseja que o tribunal se torne um braço de seu governo: puna os opositores e livre familiares e amigos. 

Somente os que se deixaram radicalizar pela retórica bolsonarista fecham os olhos para os negócios imobiliários da família do presidente. O senador Flávio Bolsonaro comprou uma casa por R$ 6 milhões. Diz ter recorrido a um empréstimo bancário. Depois, um ex-funcionário de confiança da família conta que a ex-mulher do presidente comprou outra mansão, que foi registrada em cartório com o valor de R$ 2,9 milhões. O imóvel estaria em nome de um laranja. Seria para esconder esse "problema" que o presidente dá ultimatos ao Supremo? Quem vai à rua apoiá-lo pouco se importa com isso? 

A impostura é evidente. O que explica, então, que milhares de militares ainda o apoiem? Há duas razões para isso: a primeira é a ideia de que lhes falta alternativa viável do ponto de vista eleitoral. Por esse raciocínio, quem não vota em Bolsonaro, terá de votar em Lula. A outra é o bolso, o poder e o prestígio. Quando é que alguns deles, mediocridades que receitavam cloroquina contra todas as evidencias científicas, teriam um espaço para mandar – e ganhar salários de marajás em estatais – em governos minimamente comprometidos com o bem comum da República?

Há no País a impressão de que ganhar dinheiro é muitas vezes apenas o resultado da esperteza, da corrupção e da impostura. Ou de uma postura, de uma ética que vê na selva o seu habitat. Nas redes sociais não falta quem diga às pessoas que tenham orgulho de seus medos. A vergonha de afirmar o indizível se transforma em ato de coragem, sob a desculpa de se lutar contra a hegemonia da esquerda. O que é crime, vira direito e o que era razão para o opróbrio, motivo de orgulho. Eis o que explica os que defendem o golpe usando a expressão "artigo 142 da Constituição". 

"Tenho certeza de que daqui a dez anos, muitos dos que abraçaram o bolsonarismo terão de se explicar aos seus parentes e amigos. A marca ficará como aqueles de passado integralista", disse o coronel Glauco Carvalho, ex-comandante do policiamento da capital. Carvalho tomou uma decisão: quer estar em paz com sua consciência, mesmo sabendo que isto vai lhe causar a perda de amigos e a incompreensão de muitos.  Ao saber que seu ex-aluno, o coronel Aleksander Lacerda, então comandante do policiamento na região de Sorocaba, convocava amigos para os atos de 7 de Setembro, Glauco defendeu sua punição. Entre a amizade e a lei, ficou com a lei. E acabou ofendido pelos colegas de farda por dizer que o bolsonarismo é o que de pior existe na política do País.

São muitos os coronéis da PM de São Paulo que participam do banquete oferecido por Jair Bolsonaro aos militares. São boquinhas e posições de mando em todo o governo, do Ministério do Meio Ambiente à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). Coronéis paulistas se tornaram sócios do desastre ambiental causado pelo governo Bolsonaro na Amazônia, com o sucateamento de órgãos de fiscalização e com uma política sob investigação da Polícia Federal por facilitar a vida de madeireiros acusados de furtar árvores de terras públicas e de contrabandear sua madeira para os EUA.

O governo deixou de deter organizações criminosas montadas para explorar ouro de forma ilegal em terras indígenas e evitou destruir os equipamento de garimpeiros que poluem rios e desmatam a floresta. Coronéis transformaram a ajuda aos necessitados – com a  doação de alimentos do Ceagesp – em uma ação de marketing bolsonarista contra prefeitos que decretaram lockdown no interior paulista. A instabilidade política criada por Bolsonaro aprofundou a crise econômica. A carestia – essa palavra que amaldiçoou os anos finais do regime militar – está de volta com a inflação pelas mãos de alguém que sentia saudades da ditadura. 

É este o governo que os colegas do coronel Glauco tanto defendem. Entre eles há quem diga e escreva que a única instituição golpista que vê no Brasil é o STF. E ainda afirma que o Supremo dá um golpe à conta gotas. Outros dizem lamentar que o colega se coloque a serviço dos comunistas e contra os conservadores. E refutam a alcunha de gado, dada aos bolsonaristas, afirmando que os ignorantes são os outros. Levantam o argumento do perigo vermelho, coisa de néscios, de quem vive envolto no medo hobbesiano ou em busca de inimigos para justificar um regime de exceção. E ainda mandam o desafeto filosofar em Cuba e na Venezuela. 

Muitos deles irão amanhã à Avenida Paulista. São pessoas que se informam pelo WhatsApp ou em sites de propaganda bolsonarista. Pessoas que adoram falar da "ignorância do povo". Há os que defendem o impeachment de ministros do Supremo. Outros querem mesmo fechar a Corte. Representam um Brasil arcaico e avesso à modernidade. Alguém poderia lembrar tristemente do verso do poeta Ênio: "Moribus antiquis res stat Romana virisque" ("Sobre os costumes e sobre os homens antigos se ergue o Estado romano"). Um verso que, pela brevidade e pela verdade, pareceu a Cícero quase um oráculo. 

Para o pensador e político romano, nem os homens, se não tivessem aqueles fundamentos morais, nem os costumes, se a sua tutela não estivesse nas mãos daqueles homens, teriam podido tornar estável por tanto tempo um Estado tão grande quanto o de Roma. É sobre costumes degradados e homens atrasados que se ergue o País que o bolsonarismo procura manter. Trata-se de visão de mundo contrária às câmeras nos corpos dos PMs porque prefere as relações do compadrio e o arbítrio. Não suporta a impessoalidade do serviço público e deseja o poder de arredondar ocorrências em vez de cumprir a lei. 

A tradição que cultuam não é a de Pais Fundadores de uma Pátria, mas a dos que fazem deste chão uma terra de rapina. Cícero pensava que não havia República onde não havia Justiça. E que a República era uma empresa do povo. Este não seria apenas o conjunto de indivíduos, mas uma "associação de pessoas baseada na aceitação do direito e na comunhão de interesses". Só haveria República quando governada no bem e na Justiça. Como instrumentos musicais, as vozes diferentes do povo precisam da concórdia. "O que os músicos chamam de harmonia no canto, chama-se concórdia na cidade – o mais seguro e o melhor veículo para a segurança de todo o Estado. E esta concórdia sem Justiça é o que não pode subsistir."

Quando escreveu sobre a República em a Cidade de Deus, Agostinho relatava que Cícero pensava que os romanos conservavam do antigo Estado apenas o nome. "Em sua substância, nós já o perdemos há tempos." A degradação da cidade dos homens e a decadência do Império explicam no santo o seu pessimismo. Ele é muito diverso dos defensores do presidente. Estes não procuram valores ou grandeza perdida. Buscam reinventar o passado para esconder os seus crimes. Costumes e homens arcaicos explicam o faccionismo bolsonarista. Querem um Supremo para chamar de seu; e sepultar a Justiça para enterrar a igualdade e a concórdia.

 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.