RODOLFO BUHRER|REUTERS
RODOLFO BUHRER|REUTERS

Odebrecht pagou serviços no exterior, diz marqueteiro

Segundo João Santana, Venezuela e El Salvador tinham ‘maior interesse da cúpula petista e do ex-presidente Lula’

Rafael Moraes Moura e Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2017 | 05h00

BRASÍLIA - A empresária Mônica Moura e seu marido, o marqueteiro João Santana, confirmaram em depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que a Odebrecht fez pagamentos a eles pelas campanhas presidenciais na Venezuela, El Salvador, Angola e Panamá. De acordo com o marqueteiro, sua entrada nas campanhas vinha a convite da própria empreiteira ou por meio de influência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Parte dos relatos dos delatores da Odebrecht relacionada a crimes cometidos em outros países é mantida em sigilo. Pelo acordo, temas internacionais devem permanecer em segredo até 1º de junho para dar tempo para que a empreiteira negocie os acordos em cada um dos países em que se envolveu em esquemas de corrupção.

Na Venezuela, a contribuição para a campanha de Hugo Chávez em 2012 não veio só da Odebrecht. A Andrade Gutierrez também financiou os trabalhos do marqueteiro com uma “contribuição de US$ 2 milhões”, segundo Mônica Moura, que aponta que o pagamento foi feito por meio de uma offshore. A empreiteira negocia atualmente um recall com a Lava Jato para falar fatos que não entraram em sua delação premiada, mas foram mencionados pela Odebrecht.

Já a Odebrecht contribuiu com ao menos US$ 7 milhões para a campanha de Chávez. Os pagamentos no caso de campanhas internacionais poderiam ser feitos na conta mantida pelo casal na Suíça, em dinheiro no país onde era realizado o trabalho ou em dinheiro no Brasil.

Santana cita Venezuela e El Salvador como países em que o interesse maior era da “cúpula petista e do presidente Lula”. Em El Salvador, o pagamento foi feito no Brasil, segundo Mônica. O casal foi responsável pela campanha do presidente Maurício Funes em 2009. Em parte do material encaminhado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF) com base nas delações da Odebrecht, os delatores indicam pagamento de R$ 5,3 milhões a João Santana em razão da campanha de Funes.

Ao TSE, João Santana afirmou que chegou a conversar com Lula sobre a escassez de recursos da campanha de Funes. “Era uma campanha dificílima, de grande interesse das esquerdas latino-americanas e estava para fracassar a campanha por falta de recursos. E eu voltei aqui para conversar com o presidente Lula sobre isso”, disse Santana. “Então ele (Lula) me disse: ‘olha, João, quanto?’”. Segundo ele, após responder que o valor girava em torno de US$ 1 milhão, Lula disse que o ex-ministro Gilberto Carvalho avisaria Emílio Odebrecht – presidente do Conselho de Administração do grupo que leva seu sobrenome – que Santana iria procurá-lo.

“Eu até ponderei: ‘não é a minha alçada, nunca falei com ele’”, disse Santana. Ao que Lula teria respondido que Emílio iria resolver. Depois disso, Carvalho avisou o marqueteiro que ele poderia ligar para Emílio e passou o contato do executivo. Depois de telefonar, João Santana ouviu de Emílio Odebrecht: “Muito bem. Agora, eu queria pedir o seguinte, João, entenda o que vou lhe falar, nada contra você, mas diga ao chefe que eu prefiro tratar desse assunto com o Italiano”. Questionado, Emílio respondeu que Italiano seria “o nosso Palocci”, segundo o relato de João Santana ao TSE.

No caso de Angola e do Panamá, o marqueteiro disse que o maior interesse da entrada na campanha eleitoral era da própria Odebrecht. “Se bem que, em alguns momentos, coincidiam. Angola, por exemplo, o presidente Lula reforçou a minha decisão. Reforçou não, me convenceu”, disse o marqueteiro.

Ele conta que Lula fez uma visita ao presidente angolano José Eduardo Santos na época em que ele iria concorrer à reeleição. “Na volta, ele (Lula) me chamou lá e disse: ‘Olha, o José Eduardo quer que você vá, e o Emilio (Odebrecht) quer. Então é bom. Angola é de interesse estratégico para o Brasil. Você sabe”, disse. De acordo com Mônica Moura, a Odebrecht pagou US$ 20 milhões pela campanha de Angola em 2012.

O único candidato a presidente que teve campanha feita por Santana e não ganhou as eleições também contou com apoio da Odebrecht. É João Domingo Arias, no Panamá, em 2014. No depoimento, Mônica Moura trata do político como “o candidato do presidente Martinelli”. Os filhos de Martinelli são alvo de investigações locais por suposto recebimento de propina da Odebrecht. A empresária estima ter recebido cerca de US$ 10 milhões pela Odebrecht entre dinheiro em mãos no Panamá e depósitos na Shellbill – neste caso, no valor de US$ 1,2 milhão.

De fora. A campanha presidencial da República Dominicana em 2012 que elegeu Danilo Medina no primeiro mandato foi feita por Santana. O casal informou ao TSE, no entanto, que a Odebrecht não financiou os trabalhos dos dois no país. João Santana chegou a participar de parte da campanha à reeleição do presidente em 2016 antes de ser preso na Lava Jato.

Santana conta que a Odebrecht o convidou para fazer outras campanhas, que ele não aceitou, como uma disputa presidencial em Gana e a campanha de Alan Garcia, no Peru.

Temer. Segundo Santana, o presidente Michel Temer o convidou para trabalhar numa campanha eleitoral no Haiti por volta de 2015, fazendo insistentes pedidos para que o marqueteiro topasse a empreitada. “Uma pressão amigável”, definiu o marqueteiro. Mesmo diante da negativa de Santana, Temer teria pedido que o publicitário reconsiderasse a decisão. Santana não soube dar no depoimento o nome do candidato para o qual trabalharia no Haiti.

Defesas. Procurado pela reportagem, o ex-ministro Gilberto Carvalho disse que não teve nenhuma relação com o financiamento da campanha de Maurício Funes em 2009. “Não participei de nenhuma tratativa de financiamento da campanha nem do presidente Lula, da presidente Dilma e muito menos de um outro País”, disse Carvalho ao Estado.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Andrade Gutierrez informou que “segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado pela empresa com o Ministério Público Federal e reforça seu compromisso público de esclarecer e corrigir todos os fatos irregulares ocorridos no passado”.

A assessoria do presidente Michel Temer não se pronunciou. A defesa do ex-presidente Lula também não se manifestou.

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