VALERIA GONCALVEZ/AE
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Odebrecht fazia 'dólar-cabo' com cervejaria Itaipava

Nas últimas quatro eleições, foram movimentados R$ 120 milhões segundo relatos de delatores da empreiteira

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2017 | 21h07

Nas últimas quatro eleições, ou seja, durante os últimos 20 anos, a Odebrecht fez troca de moedas com o grupo Petrópolis, dona da cervejaria Itaipava, em operações que movimentaram cerca de R$ 120 milhões. As operações consistiam ao que no mundo dos doleiros é conhecido como 'dólar-cabo'. Basicamente, no caso dos doleiros, o cliente entrega o dinheiro em reais aqui no Brasil e recebe os dólares no exterior. A Justiça chama de "transferências internacionais informais".

O sistema usado entre o grupo Petrópolis e a Odebrecht funcionava da seguinte forma: a Itaipava doava reais para as campanhas de políticos no Brasil, a pedido da Odebrecht, e recebia da empreiteira o equivalente em dólares no exterior. Essa operação foi revelada por três delatores da Odebrecht e a procuradoria pediu ao Supremo Tribunal Federal que o caso seja enviado para análise da Justiça federal do Paraná, que já investiga fatos semelhantes, segundo os procuradores. As investigações têm o objetivo de esclarecer se o dinheiro recebido pela cervejeira no exterior era uma forma de "esquentar" dinheiro com a venda de cerveja sem nota fiscal. Já a Odebrecht admitiu  que seu objetivo era usar o dinheiro da Petropólis para pagar propinas a políticos.

O dólar-cabo é uma operação muito conhecida do juiz Sérgio Moro. Foi ele o responsável por condenar  47 doleiros, em junho de 2014, denunciados na operação Curacao da Polícia Federal por crimes de evasão de dividas e lavagem de dinheiro. Para dar base à condenação, o juiz argumentou na época que as operações de dólar-cabo, ou transferências internacionais informais, são ilegais porque são feitas à margem do sistema financeiro, sem registro no Banco Central e por pessoas não autorizadas a operar câmbio. O juiz chegou a citar decisões do STF nos casos do mensalão em que parte dos réus foi condenada por crimes de evasão de divisas pela realização de depósitos via dólar-cabo.

Entre as centenas de petições e dezenas de inquéritos abertos no STF por conta da delação da Odebrecht, o grupo Petrópolis é citado ainda em um inquérito que procura investigar o deputado federal Mario Silvio Negromonte. De acordo com os procuradores foram feitas doações eleitorais não contabilizadas que necessitam de eslcarecimentos.

Em nota, o Grupo Petrópolis afirmou que suas relações com a Odebrecht sempre foram profissionais. "A Odebecht construiu as fábricas da empresa. Todas as transações financeiras foram declaradas e todas as doações de campanha feitas pelo Grupo Petrópolis seguiram estritamente a legislação eleitoral e estão devidamente registradas", afirma a companhia. 

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