Ocupações vão continuar, garante Stédile

Para líder do MST, direita ?está usando Judiciário e imprensa? para impedir pobres de lutar por seus direitos

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2008 | 00h00

"Toda região com grande concentração de pobres e redução do espaço para a pequena agricultura, tende a se tornar um foco permanente de luta pela conquista da terra", disse ao Estado o economista João Pedro Stédile, um dos principais líderes nacionais do MST, ao comentar os números do levantamento feito pelo Nera, apontando a permanência dos conflitos no País. "Enquanto o governo não resolver os problemas dessa gente, ela vai estar disposta, dia após dia, ano após ano, a participar das ações de ocupação das grandes propriedades."Para Stédile, as ocupações vão continuar em todo o País. No entanto, ele admitiu que, embora as ações dos sem-terra tenham aumentado durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na comparação com o governo anterior não foi um avanço tão intenso quanto se esperava. A causa disso teria sido a decepção dos trabalhadores: "Houve até um certo refluxo em áreas onde a reforma agrária parou. É uma mostra do desencanto, do desânimo das pessoas que, depois de acampadas durante anos, não vêem o governo agir."Esse refluxo não deve ser interpretado, porém, como o fim da luta: "A companheirada recua, espera, mas não desiste."?GOVERNOS FROUXOS?O Estado também ouviu o presidente da União Democrática Ruralista (UDR), o proprietário rural Luiz Antonio Nabhan Garcia. Ao falar sobre a situação da região do Pontal do Paranapanema, que abriga a sede da UDR, na cidade de Presidente Prudente, e é apontada no levantamento como principal foco de conflitos do País, o ruralista também culpou o governo."Os conflitos persistem há quase 30 anos no Pontal por causa de governos frouxos", disse Nabhan. "Pela legislação em vigor no País, quem age fora da lei tem de ser punido. Isso não ocorre com os sem-terra, que invadem propriedades privadas, por causa de uma explícita má vontade de sucessivos governos, tanto na esfera federal quanto na estadual. Acham que punir os sem-terra é antipático. Temem contrariar eleitores para os quais os sem-terra são as vítimas, os coitadinhos dessa história. Nós, os proprietários, ficamos no meio desse jogo político, dessa barbaridade."Sobre a afirmação do MST de que as terras do Pontal são quase todas terras públicas, devolutas, e por isso devem ser incorporadas à reforma agrária, o fazendeiro disse: "Isso é uma lenda criada pelo MST, uma espécie de combustível para suas ações. O volume de terras devolutas no Pontal é mínimo. Se tivessem boa vontade e firmeza, os governos já teriam resolvido o problema há muito tempo."CAMPANHANo sábado à tarde, ao discursar durante uma solenidade de entrega de casas para os moradores da Comuna D. Tomás Balduíno, na zona rural de Franco da Rocha, interior de São Paulo, Stédile afirmou que foi deflagrada no País uma grande ofensiva para frear as ações de movimentos populares, de sem-terra, indígenas e quilombolas. "A direita, os conservadores, os ricos, os detentores de privilégios neste País estão usando o Judiciário e a imprensa para evitar que os pobres lutem por seus direitos."O bispo d. Tomás Balduíno, fundador e conselheiro da CPT, também disse que os pobres da zona rural enfrentam um momento difícil, com a concentração cada vez maior de terras e o avanço da cana-de-açúcar. "Em Goiás, onde eu moro, tenho visto os canaviais tomarem todas as terras", disse.As 61 casas da comuna foram construídas com o apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e recursos da Caixa Econômica Federal, no total de R$ 1 milhão. De acordo com a presidente da Caixa, Maria Fernanda Coelho, o dinheiro vem de um programa especial, estimulado pelo presidente Lula, para a construção de habitações na zona rural, em parceria com setores sociais organizados. Para ela, "o MST representa um dos setores mais bem organizados de nossa sociedade".

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