Gabriela Korossy/Agência Câmara
Gabriela Korossy/Agência Câmara

'Obsessão por índios deturpa Sínodo da Amazônia', diz bispo

Voz crítica ao encontro convocado pelo papa Francisco, d. Azcona diz que Bolsonaro deve ser enfrentado pela Igreja se atentar contra a Amazônia

Entrevista com

Dom José Luís Azcona Hermoso, bispo emérito da prelazia do Marajó (PA)

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 12h16

O bispo emérito do Marajó (PA), d. José Luís Azcona Hermoso, é uma das raras vozes críticas ao Sínodo da Amazônia na Igreja Católica. Aos 79 anos, com a autoridade de quem vive há mais de três décadas na ilha paraense, onde já foi atacado por um búfalo e ameaçado de morte por denunciar a exploração sexual de crianças, o clérigo espanhol afirma que a assembleia convocada pelo papa Francisco ignora a realidade ao dar protagonismo aos indígenas, o que pode tornar "supérfluo" o esforço da Igreja. “A tendência obsessiva por entender a Amazônia desde os povos indígenas como a única deturpa e faz inútil a celebração do Sínodo”, disse ele.

Aposentado, d. Azcona não viajará a Roma, mas sugere que o Vaticano discuta a situação da vida urbana, dos negros e a penetração evangélica na região. Ele não é contra a realização do sínodo e defende o direito de a Igreja se posicionar contra a ordem política e a dominação econômica, sem que isso signifique uma ameaça à soberania nacional - preocupação que ele atribui aos militares da reserva no governo federal. "Se Bolsonaro atenta contra o bem da Amazônia, ele deve ser enfrentado", afirmou.

Nos documentos do Sínodo, a Igreja se coloca contra alguns tipos de exploração econômica na Amazônia, entre elas a mineração, e defende as reservas indígenas e ecológicas. Nesses casos, a Igreja se opõe a propostas do presidente Jair Bolsonaro. A Igreja não age politicamente?

A Igreja se posiciona contra todo tipo de dominação. A Igreja no Brasil sempre se apresentou como defensora da justiça e advogada dos pobres, no caso, dos indígenas. E todo católico, todo brasileiro coerente com as exigências da sua humanidade e cidadania, se posicionará com energia e resolução contra todo tipo de dominação econômica e ecológica.

Não sei o que o presidente Jair Bolsonaro pensa, mas se ele atenta contra o bem da Amazônia, da criação, dos direitos comprovados dos indígenas, ele deve ser enfrentado com meios justos, legítimos e eficientes. Isso é o que a Igreja com todo o povo brasileiro deverá enfrentar se for comprovada a existência de projetos gravemente opostos ao meio ambiente, aos indígenas ou ao bem comum da nação.

O Sínodo pode expor o governo Bolsonaro no exterior?

O Sínodo não necessita expor diante do mundo o que já está exposto. O Sínodo poderá externar seu ponto de vista com relação à Amazônia e ao Brasil. É de justiça reconhecer que a Igreja, um Sínodo no seu nível de autoridade, pode em todo momento e em toda parte, também no Brasil, pregar a fé com autêntica liberdade. Ela está incumbida por Jesus Cristo a dar seu juízo moral, inclusive sobre matérias referentes à ordem política quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa, das etnias da Amazônia ou a salvação das almas.

O governo afirma que o Sínodo ameaça a soberania nacional.

O Sínodo não atenta contra a soberania nacional. Pelo contrário, ele está em condições, se fiel a Cristo, de relançar os fundamentos da democracia, da igualdade cidadã, do respeito à pessoa, sobretudo, pobre, marginalizada e excluída. O Sínodo é capaz de fazer acontecer a reconciliação nacional. Nunca o Brasil esteve tão cindido, tão polarizado. Se quiser sobreviver, o Brasil tem necessidade absoluta, urgentíssima, de reconciliação, que se concretiza no amor aos inimigos. Este é o primeiro desafio que o Sínodo e a Igreja de Cristo têm que enfrentar.

Por que os militares são o segmento do governo que mais manifestam resistência ao sínodo?

Existe um grande numero de militares bem informados que não manifestam resistência nenhuma ao Sínodo. Por outra parte, é possível que militares da reserva manifestem certa resistência a este evento.

O governo tentou interferir no Sínodo?

Não me consta. Se o tivesse feito teria retrotraído o Brasil ao Médio Evo (Idade Média), ao Josefinismo, a um intento anacrônico e absolutamente inócuo.

O sínodo ignora algum tema relevante da Amazônia?

O Instrumento Laboris (Documento de Trabalho, texto que orienta as discussões no Vaticano) ignora completamente a realidade da Amazônia, fazendo supérfluo o Sínodo da mesma. Os protagonistas são as etnias indígenas que no Brasil constituem uma minoria mínima, um pouco mais numerosa em outras nações em território amazônico. A tendência obsessiva por entender a Amazônia desde os povos indígenas como a única Amazônia deturpa e faz inútil a celebração do Sínodo.

Em concreto, o rosto amazônico hoje é majoritariamente pentecostal. O desprezo prático dos afro-amazônicos, mais numerosos no Brasil que os indígenas, é uma injustiça, uma atitude completamente contraditória com o que deve ser o caminho sinodal. Os caboclos que povoam as imensas margens do Amazonas infinito são um grupo humano excluído violentamente do mapa da mesma, por uma atitude seletiva que necessariamente perverte a realidade. Muito triste! Os amazônidas, além do mais, não habitam mais no interior, no mato, nas águas. Em sua grande maioria habitam em cidades. Sua cultura, portanto, é urbana. Como se pode ser tão cego?

Como o senhor conclui que a Amazônia não é mais católica?

Efetivamente, a Amazônia, mais propriamente a brasileira, não tem maioria católica. Em algumas regiões da Amazônia oriental, o número dos pentecostais chega a 80%. É voz comum nas reuniões pastorais na Amazônia. E essa penetração é especialmente notável em etnias indígenas. No resto da Pan-amazônia não saberia dizer. É necessário distinguir entre evangélicos e pentecostais. Estes últimos não são considerados pelos próprios evangélicos como merecedores deste nome.

O que motiva as preocupações com os pentecostais? É com alguma igreja específica?

A degradação, a pulverização do evangelho a partir da própria Bíblia, negando, com ela na mão, que “ninguém pode servir a dois senhores” ou “não podeis a servir a Deus e ao dinheiro”. Segundo eles, é Deus quem abençoa com dinheiro abundante, com prosperidade ilimitada aquele que “aceitando Jesus” se faz adepto de determinada igreja. É extremamente grave. O princípio fica negado durante 24 horas de programação das TVs pentecostais ou nos seus cultos.

A sede de poder econômico com frequência associada nas igrejas pentecostais à fome pela dominação política e o controle social oferece uma distorção evidente do sentido da fé, da comunidade cristã e da missão da mesma. Abertamente, temos que reconhecer com gratidão a Deus que muitos pentecostais defendem uma ética sexual e familiar digna, respeitosa dos valores evangélicos, serena, militante e nobre.

O presidente Jair Bolsonaro tem privilegiado evangélicos em seu governo, frequentado templos, e anunciou que vai nomear um jurista "terrivelmente evangélico" para o Supremo Tribunal Federal. O que pensa sobre isso?

Penso que o critério para responder a esta pergunta não é o fato de que o presidente Bolsonaro privilegie pentecostais em seu governo. Entre eles existem pessoas dignas. Seria perverso nomear corruptos, traidores, inimigos do Brasil, enfim, pessoas que deveriam estar reclusas como criminosos no presídio. E são eles tantos no Brasil de um lado e de outro, de uma determinada ideologia e da outra, que se identificam na pertença à mesma raça de víboras e que estão soltos ou prisioneiros.

Grupos conservadores católicos se levantaram contra o sínodo, nas redes sociais e nas ruas. O sr. se identifica com esses movimentos?

Conservador é um termo não propriamente teológico, pode designar várias realidades ou conteúdos sociológicos, culturais, históricos. Se “conservador” designa a identidade cristã como membro da Igreja, eu não sou “conservador”, mas “fiel”, enquanto essa fidelidade é a única a assegurar uma autêntica evangelização atual para um Brasil absolutamente desumanizado, de pensamento fraco e sem garra para transformar a realidade nacional.

É possível dimensionar a influência desses conservadores?

Tanto “conservadores” como “progressistas” hoje no Brasil são grupos letárgicos, sonolentos, incapazes de criar algo novo, de ordenar minimamente o caos e a inconsciência de tantos brasileiros verborrágicos, já exaustos e exauridos.

Em que aspecto o sínodo pode ser considerado uma ruptura na Igreja, como dizem alguns religiosos?

Enquanto se dilui a revelação de Cristo. No Instrumento de trabalho, Cristo é negado como Crucificado, quer dizer, é sequestrado no texto. Não somente porque não aparece uma só vez o nome glorioso de Crucificado. O mais grave é o fato de Ele ser silenciado por completo nas grandes questões como diálogo, culturas, etnias, escatologia, esperança. Por outro lado, o nivelamento entre Jesus Salvador e os outros interlocutores: Culturas, etnias, religiões, termina com o ser e a missão da Igreja. Ele rebaixa e nega a identidade de Cristo como Senhor e Salvador, Deus e homem. De fato, um insulto grave contra o nome de cristão.

Ao mesmo tempo, e o dizemos com tristeza, um sinal alarmante do secularismo radical que grassa em alguns âmbitos da Igreja Católica. A agressão a Cristo, a sua anulação sumária, termina com a única esperança da Amazônia e de todos os seus povos, fechando assim de modo dramático e cego o acesso a uma verdadeira ecologia, à luz e sob o poder do evangelho para transformar as atitudes necessárias com relação a natureza, a ecologia, a casa comum. 

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