Obsessão com terrorismo impede diálogo sobre pobreza, diz FHC

O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje que a obsessão das grandes potências com o terrorismo impede qualquer discussão sobre a redução das desigualdades no mundo. Foi uma clara referência aos Estados Unidos, que ele não citou especificamente. O presidente conclamou latino-americanos, caribenhos e europeus a se unirem para mudar a agenda do debate mundial, revitalizando o trabalho "para a paz e o progresso." Essa foi a principal linha do discurso que fez na cerimônia de abertura da II Cúpula América Latina e Caribe - União Européia. "Podemos e devemos atuar juntos para prevenir riscos que nos afetam igualmente", afirmou. "Compreendemos as reações, mais que justificadas, às ameaças do terrorismo e do uso de armas de destruição em massa", afirmou. "Mas não queremos que, movidas pelo medo, as grandes potências substituam a agenda da esperança - o comércio aberto, uma nova arquitetura financeira, a luta contra a pobreza e a exclusão social e cultural - pela obsessão única do tema da segurança."Ele disse que a aproximação entre Europa, América Latina e Caribe terá seu peso na configuração da ordem mundial do século XXI que, na sua opinião, deve ser "plural, policêntrica, sem monopólios do poder ou da riqueza". As duas regiões, lembrou, têm uma vantagem comparativa no aprofundamento dessa associação, que é a herança histórica e cultural comuns. "Está diante de nós a tarefa de construir uma cidadania planetária", afirmou.Por outro lado, Fernando Henrique não deixou de fazer críticas pesadas ao protecionismo, que é praticado tanto pelos Estados Unidos quanto pela Europa. O exemplo mais concreto são os subsídios que a União Européia concede a seus agricultores.Em seu discurso, ele mostrou que a escalada do protecionismo por parte dos países ricos atrapalha a busca por um mundo menos desigual. Na sua avaliação, houve uma inversão no espírito das medidas protecionistas. Inicialmente criadas para promover o desenvolvimento dos países mais pobres, elas agora converteram-se na "defesa dos privilégios dos mais ricos." Esse raciocínio, levado ao extremo, teria como resultado "um sistema internacional no qual a melhor forma de ser competitivo seria, pura e simplesmente, ser rico."Ele afirmou que os países em desenvolvimento se deparam com barreiras "intransponíveis a seus produtos mais competitivos". Elas aparecem na forma de subsídios agrícolas, sobretaxas industriais, picos e escaladas tarifárias, medidas discriminatórias, cotas. "São barreiras que ameaçam anular o potencial igualitário do comércio internacional e transformá-lo em mecanismo de congelamento das desigualdades", afirmou.O protecionismo e as práticas desleais de comércio, disse Fernando Henrique, "continuam a comprometer as perspectivas de desenvolvimento em muitos países." Por isso, acredita, esses países estão preocupados "quanto à sinceridade do compromisso da comunidade internacional com o livre comércio e com a construção de uma ordem favorável ao progresso de todos."Ele ressaltou que a globalização tem produzido efeitos assimétricos pelo mundo. Desde a realização da I Reunião de Cúpula, em 1999, no Rio de Janeiro, registrou-se um crescente descontentamento com a globalização, avaliou Fernando Henrique. O presidente se mostrou preocupado com o fato de o aumento do protecionismo estar colocando em xeque o espírito de fortalecimento das instituições multilaterais, que marcou a rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Doha, em 2001. "Valorizemos a instância multilateral, ora ameaçada pelo crescimento indiscriminado do bilateralismo e do regionalismo", pediu o presidente. "Trabalhemos juntos na OMC para que a rodada de Doha resulte efetivamente em uma transformação qualitativa do comércio internacional e conduza a disciplinas voltadas para o desenvolvimento sustentado. Sem discriminações. Sem exclusões voluntaristas."Fernando Henrique lembrou que o objetivo dos países participantes daquela reunião deveria ser buscar formas de melhor distribuir os benefícios dos avanços tecnológicos e de alcançar o desenvolvimento sustentado. O grande desafio é traduzir esses princípios em ações concretas. Ele disse que a cooperação em defesa da democracia é antiga, mas continua necessária. "Na América Latina, episódios recentes mostraram o quanto permanece viva a ameaça golpista", disse. "Mas mostraram também a força das instituições democráticas." Também na Europa, disse o presidente, "supreendemo-nos com manifestações de extremismo e intolerância."

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