Obra de centro esportivo, paralisada em 2007, recebeu R$ 1,37 mi da União

Convênio entre o Ministério do Esporte e a Prefeitura de Campos do Jordão foi assinado em 2006 pelo ministro Orlando Silva

Gerson Monteiro/Especial para o Estado,

24 de outubro de 2011 | 23h43

Projetado para fornecer infraestrutura ao esporte brasileiro em modalidades olímpicas e paraolímpicas, o Centro de Treinamento de Esportes de Alto Rendimento de Campos do Jordão, a 175 km de São Paulo, está longe de ficar pronto para servir de apoio na preparação de atletas para os jogos de 2016. Apenas três pessoas trabalham na obra que deveria ter sido entregue no fim de 2007, de acordo com nota do próprio Ministério do Esporte divulgada em 2006, e já recebeu o R$ 1,37 milhão previsto.

Financiada com recursos do governo federal, por meio de contrato de repasse com o Ministério do Esporte e a prefeitura, a obra está paralisada desde 2007 por problemas com as empresas vencedoras da licitação, segundo o Executivo local. Só há dois meses foram retomados os trabalhos, que ainda assim já consumiram R$ 800 mil, segundo a prefeitura. Três operários trabalham de segunda a sexta-feira. Cavalos pastam livremente na imensa área reservada para o projeto.

 

O projeto do Centro de Treinamento foi assinado pelo ministro do Esporte, Orlando Silva, em 2006, e inclui participação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que será responsável pelo uso do espaço como centro de pesquisa científica e tecnológica na área do esporte.

 

Dados do Portal da Transparência, do governo federal, mostram o repasse do R$ 1,37 milhão para a Prefeitura de Campos do Jordão e a previsão de R$ 733 mil de contrapartida. A última liberação foi de R$ 1 milhão, em dezembro de 2006. A vigência do convênio é até 26 de dezembro deste ano. O Departamento de Convênios (Deconv) da prefeitura confirma que recebeu da União R$ 1,3 milhão.

 

“O centro será referência para receber atletas de alto nível. É por meio de ações como essa que conseguiremos equipar e capacitar o País visando a sediar grandes competições internacionais, como a Olimpíada de 2016”, disse Orlando, na assinatura do convênio, segundo reportagem no site da pasta.

Depois da fase inicial de infraestrutura, com obras de terraplenagem, abertura de ruas e tubulações de água e esgoto, o projeto ficou parado desde 2007. Nesse período, a área destinada ao alojamento de 80 atletas serviu para criação de cabritos de moradores vizinhos. O local ainda guarda o cheiro forte das fezes dos animais, encontradas por todo o prédio. Um cômodo, fechado com madeira, serve de abrigo para parte do material básico de construção.

 

Do lado de fora do alojamento, um registro com defeito derrama água dia e noite. Na parte baixa do terreno, no barracão improvisado para servir de sanitário para os operários, uma mangueira estourada jorra água permanentemente.

 

Em um dos espaços em que a terraplenagem já está pronta, caminhões estão despejando o barro retirado das obras de implementação da rede de esgoto da cidade. No platô projetado para ser um ginásio coberto, as águas da chuva abriram imensas valas no terreno. As pistas de bicicross e de mountain bike sumiram no meio do mato.

 

A falta de planejamento e o desperdício de verba pública são visíveis na construção do refeitório. Paredes de alvenaria foram demolidas, e o entulho despejado ao lado do prédio. A tubulação de energia elétrica, que deveria ser subterrânea, está exposta ao tempo nas valas abertas.

 

De acordo com o caseiro Mauro Zeferino, 50 anos, que mora em um sítio há 18 anos em frente à área destinada ao centro, os operários passam dias sem material básico para o trabalho.

 

“Na primeira parte da obra, em 2007, eram 16 pessoas, agora são só 3. Sempre eles reclamam que estão sem material”, afirma. O criador de cavalos Edvaldo Souza, 45 anos, confirma o descaso: “O pessoal aí vive sem material para trabalhar, por isso que nunca sai nada. Acho que isso foi só uma enrolação. Não tenho esperança de ver isso pronto”.

 

Obra fantasma. As sinalizações turísticas próximas à Ducha de Prata – um dos pontos mais visitados da cidade – apontam aos turistas o caminho do futuro Centro de Treinamento Esportivo, localizado a 8 km do portal de entrada da cidade. A expectativa de encontrar um centro para atletas de alto rendimento é frustrada assim que se avista uma placa, em meio ao matagal, mostrando o valor da obra: R$ 2.102.871,39.

 

“Quando as pessoas perguntam onde é o centro de treinamento eu mostro: ‘É isso aí que você está vendo’”, diz o caseiro Zeferino.

 

Para o casal paulista Denise e Carlos Laubé, que desde 2007 visita a área na expectativa de ver pronto o centro de treinamento, “é um sentimento de desolação esse pouco caso, um absurdo, uma pena” encontrar o local totalmente abandonado.

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