''Objetivo é erradicar tráfico de pessoas''

De passagem pelo Brasil, Lagon afirma que os EUA querem 'um diálogo cada dia mais intenso' nessa área

Entrevista com

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

28 de junho de 2008 | 00h00

O Brasil "tem feito grandes progressos" na luta contra o trabalho escravo e contra a exploração do comércio sexual, mas "ainda há muito a fazer, principalmente na área judicial, onde são raros os casos de punição dos responsáveis". Ao fazer essa afirmação, o embaixador americano Mark Lagon, que passou esta semana pelo Brasil, ressalta: "Não estamos aqui para fazer cobranças, mas para tornar mais intensa a parceria e a luta contra essa moderna forma de escravidão." Lagon é o diretor do Escritório de Combate ao Tráfico de Pessoas do governo americano. Coordenou o recente Relatório 2008 sobre Tráfico de Pessoas, na área do Departamento de Estado. No estudo, o Brasil ficou no segundo melhor grupo, entre os quatro apresentados. O capítulo relativo ao Brasil diz, textualmente, que o governo brasileiro "não preenche os mínimos padrões para a eliminação do tráfico", mas tem se esforçado para isso. Ele calcula que "entre 25 mil e 100 mil homens" sejam submetidos ao trabalho escravo no País. E destaca que "metade dos quase 6 mil homens libertados do trabalho escravo em 2007 estava sendo explorada em plantações de cana-de-açúcar para a produção de etanol". Em contatos em Brasília, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo - de onde voltou ontem para Washington -, ele informou que os EUA querem "um diálogo cada dia mais intenso" nessa área. "Eu diria que os EUA fizeram enfáticas recomendações a respeito. O grande objetivo é erradicar esse problema. Isso não se faz a curto prazo, é preciso avançar por etapas." A seguir, alguns trechos da sua entrevista ao Estado.O sr. fez contatos com o governo, em Brasília, e passou por Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Quais os resultados disso tudo?Primeiro, fiquei impressionado com a vontade que percebi, no governo e na sociedade brasileira, para discutir e encarar esse terrível problema. Mas é claro que há mais coisas a fazer. Nos Estados Unidos também há. E a mais importante delas é fazer com que os responsáveis por esses crimes sejam levados à Justiça.O seu relatório, divulgado no início do mês, elogia os avanços do Brasil nessa questão...Sim, tem havido aqui esforços admiráveis para punir companhias que são responsáveis por esses atos de trabalho forçado. O presidente Lula já comentou, ele entende a urgência desse problema. O sr. ouviu compromissos específicos das autoridades do Brasil?Não estou no papel de fazer cobranças. Eu apenas diria que o governo dos EUA fez algumas enfáticas recomendações. Há mais iniciativas e mais mobilidade para fiscalizar melhor. O que me parece significativo é o fato de que, recentemente, duas pessoas foram punidas. Não se trata de companhias, não se trata de punições financeiras, mas de sentenças criminais de fato. A Justiça brasileira costuma ser lenta, e não só nessas questões. O trabalho será demorado, não?Deve ficar claro que o objetivo é erradicar o tráfico de pessoas. E isso, sabemos, não acontecerá no curto prazo. Temos de avançar por etapas, aos poucos. Aliás, a imprensa interpretou a ação americana, na divulgação do nosso relatório, como sendo muito crítica ao governo brasileiro. O fato é que o Brasil tem feito progressos significativos. Nosso relatório divide os países em quatro grupos, do melhor para o pior, e o Brasil está no segundo desses grupos. Está claro, sim, que há muito mais a ser feito, e os EUA pretendem partilhar a sua experiência a respeito. De que forma?Precisamos de diálogo mais freqüente, até para que as autoridades do Brasil entendam que os EUA desejam ser parceiros e não fazer sermões. Queremos aprender com as lições e a experiência do Brasil. E esse é um diálogo que deve incluir empresas, áreas da sociedade civil ligadas ao problema. O sr. fez contatos com esses setores?Sim, senti boa vontade de gente que encontrei por todo lugar. Estive com mineradoras de carvão, empresários de cana-de-açúcar. Queremos que mais gente se engaje nessa cruzada. O que queremos é estar seguros de que os envolvidos em abusos sejam punidos. Como se diz nos EUA, justiça retardada é justiça negada.

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