Obama visita local do massacre em Newtown

Presidente dos EUA vai falar na escola onde 27 morreram e conversar com família de professora heroína

Denise Chrispim Marin, correspondente,

16 de dezembro de 2012 | 19h31

Ainda sem resposta para a tragédia na escola primária Sandy Hook, Newtown foi assolada por informações desencontradas e rumores, pela emoção da divulgação de fotos e da curta história de vida de suas 20 vítimas entre seis e sete anos de idade, e pela espera da visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Uma missa pelas vítimas na principal igreja católica Santa Rosa de Lima foi suspensa depois de uma pessoa ter telefonado para ameaçar ir ao templo para "terminar o serviço".

A chegada de Obama na cidade estava prevista para as 16h30 (19h30, no horário de Brasília). Antes do discurso na escola de ensino secundário local, por volta das 19h (22h, em Brasília), ele conversaria com a família de Victoria Leigh Soto, a professora de 27 anos. Considerada heroína da tragédia, ela escondera seus alunos em armários ao ouvir os tiros e foi ao encontro do atirador, a quem disse que os estudantes estavam na sala de ginástica. Ele a matou com um tiro. Seus alunos saíram ilesos.

A visita de Obama teria o objetivo de trazer conforto às famílias das vítimas e repetiria o gesto em Aurora, no Colorado, depois do massacre de 12 pessoas em uma sala de cinema em julho passado.

Entretanto, havia expectativa de reforço da primeira mensagem de Obama sobre a tragédia de Newtown, quando falou em favor da aprovação de nova legislação federal de controle do comércio de armas nos Estados Unidos. A lei anterior fora revogada em 2004. Ontem, o governador de Connecticut, Dan Malley, defendeu a medida em entrevista à CNN. A senador democrata Dianne Feinstein, da Califórnia, declarou que apresentará projeto de lei nesse sentido assim que o Congresso retomar suas atividades normais.

"Aquelas armas eram de assalto. Você não caça veados com esse tipo de coisa", afirmou Malley, em tentativa de derrubar o principal argumento de entusiastas da caça como esporte.

O desencontro de informações, os rumores divulgados pela internet e as ameaças aos fiéis da igreja de Santa Rosa de Lima levaram o tenente Paul Vance, da Polícia de Connecticut, a advertir que essas ações são criminosas e serão investigadas. Seus autores, insistiu ele, estarão sujeitos a processo judicial. Vance esclareceu que essas informações circuladas não tinham base real e não partiram da polícia de Connecticut. Igualmente foram retificados dados divulgados e coletados inicialmente pela imprensa sobre o autor do massacre, Adam Lanza, de 20 anos, e sua mãe e primeira vítima fatal, Nancy.

Autoridades de ensino local informaram que Nancy nunca atuou como professora na escola Sandy Hook, como havia sido dito antes, mas não chegaram a confirmar nem a descartar se Adam havia estudado ali quando criança. Nancy foi descrita como uma mulher divorciada que se concentrou na educação do filho, a ponto de retirá-lo da escola em alguns períodos e educá-lo em casa. Não foi confirmado o tipo de distúrbio mental de Adam, cujo sintoma mais notado era a dificuldade de convívio social.

Nancy foi descrita como uma entusiasta de armas, que ensinara os filhos a usá-las e mantinha em casa duas pistolas, ambas devidamente registradas. Marsha Lanza afirmou que sua cunhada tinha armas por questão de defesa pessoal. "Ela morava sozinha. Ela era uma mulher sozinha", afirmou para a rede de televisão NBC. Seu ex-marido, Peter Lanza, executivo da GE Energy Financial Services, não adicionou elementos para explicar o episódio. "Nós também estamos perguntando por quê", afirmou.

Com base nas informações coletadas pela polícia, a imprensa americana reconstruiu a sequência de atos de Adam. Ele usou uma das armas da mãe para matá-la, muniu-se de outras duas e dirigiu, no carro dela, até a escola primária. Não foi recebido voluntariamente, como dito nas primeiras horas depois do crime, mas quebrou uma vidraça, por onde ingressou no prédio.

Ele usou apenas uma das armas, um rifle de assalto Bushmaster calibre 0.223, de finalidade militar. Atirou nas primeiras pessoas que encontrou - a diretora Dawn Hochsprung, de 47 anos, e a psicóloga Mary Sherlach, de 56 anos - e tentou entrar em uma sala de aula, mas a porta estava trancada. Na sala seguinte, cheia de alunos, disparou.

Alguns corpos receberam 11 tiros, segundo o médico legista. As vítimas foram reconhecidas pelos familiares por fotografias, para evitar um trauma ainda maior.  Entre as crianças mortas, Olivia Engel, de seis anos, iria atuar como o anjo na encenação do nascimento de Jesus a ser apresentada nesta semana na paróquia de Santa Rosa de Lima. Emily Parker, sua colega também de seis anos, estava aprendendo a falar português com o pai, Robert, ex-missionário mórmon.

"A última conversa que tivemos foi em português. Ela me disse que me amava", afirmou ele, em um emocionado depoimento, depois do culto na igreja mórmon de Newtown. "O mundo é um lugar melhor porque ela passou por aqui", completou.

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