Obama quer evitar que crise global contagie política na América Latina

Tema deve ser discutido com Lula pelo presidente dos EUA, que teme danos aos ganhos sociais obtidos na região

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

O governo americano quer que instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial garantam aos países da América Latina acesso ao crédito internacional, para que eles possam implementar seus pacotes de estímulo fiscal coordenados. A principal preocupação da Casa Branca em relação à América Latina é assegurar que a crise financeira "não anule os ganhos sociais que os países da região tiveram nos últimos dez anos", definiu Thomas Shannon, secretário de Estado assistente, responsável pelo Hemisfério Ocidental - o cargo mais alto para a região - em seminário sobre a Cúpula das Américas, que se realiza no mês que vem em Trinidad e Tobago. "A questão mais importante no momento é a crise econômica e o potencial de ela gerar uma crise social e política na região", disse Shannon. A crise e os pacotes de estímulos devem ocupar parte do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama, amanhã.Shannon elogiou o artigo que Lula escreveu para o Financial Times, "The future of human beings is what matters" (o futuro dos seres humanos é o que importa) e afirmou que Obama pensa da mesma maneira. "O artigo do presidente Lula enfatiza a importância de políticas pragmáticas e de se medir o sucesso dessas políticas de acordo com os efeitos no cotidiano dos seres humanos", disse. "E nós concordamos com isso - achamos que se trata de uma declaração importante para o G-20 e o presidente Obama levará a mesma mensagem."O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, resumiu o sentimento geral na região sobre a crise. "Ouvimos muito na América Latina sobre como os países estavam indo bem antes de essa crise acontecer", disse. "E vários países gostariam de fazer planos contracíclicos, mas não têm dinheiro para isso, por isso foi muito importante o anúncio do secretário do Tesouro de que os EUA podem injetar dinheiro no FMI e talvez em bancos regionais."Obama e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, defendem um aumento substancial dos recursos do FMI para que o Fundo possa auxiliar economias em crise e viabilizar um estímulo fiscal global. Os EUA aumentariam sua contribuição para o FMI, mas esperam que outros países, entre eles Brasil, China e Índia, façam o mesmo.PAPAI NOELA Casa Branca deixou claro que os EUA não pretendem assumir a maior parte da responsabilidade financeira na ajuda para o hemisfério. "O presidente Obama não vai para a Cúpula das Américas como Papai Noel", afirmou Jeff Davidow, conselheiro da Casa Branca para a Cúpula das Américas.A cúpula, que vai do dia 17 de abril ao 19 de abril, será o primeiro encontro regional realizado após o encontro do G-20 em Londres, dia 2 de abril. Às vésperas do encontro entre Lula e Obama, o senador Richard Lugar apresentou proposta de resolução apoiando um tratado de eliminação de bitributação entre o Brasil e os EUA. O tratado é a principal reivindicação dos empresários brasileiros, mas está na agenda dos dois países há 40 anos e anda a passos de tartaruga. A resolução não tem efeito prático imediato. Mas a importância é que, caso seja aprovada, passa a representar a posição oficial do Senado sobre o assunto. FRASESThomas ShannonSecretário de Estado assistente"O artigo do presidente Lula enfatiza a importância de políticas pragmáticas e de se medir o sucesso dessas políticas de acordo com os efeitos no cotidiano dos seres humanos""E nós concordamos com isso - achamos que se trata de uma declaração importante para o G-20 e o presidente Obama levará a mesma mensagem"

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