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O vice no exercício

Quando Dilma Rousseff foi eleita com Michel Temer na vice-presidência, em 2010, dirigentes do PMDB vaticinavam que haveria o dia em que a presidente não poderia ir à Bolívia sem correr o risco de perder o lugar. De protagonista da cena.

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2015 | 05h00

Na época, soava a gracejo. Não apenas porque aqueles eram tempos de alta popularidade para a “mulher do Lula”. O temperamento ameno, as maneiras discretas, a formalidade e a vocação de Temer para pacificador não autorizavam crédito àquela hipótese. Muito menos que se materializasse com a participação ativa dele.

Mas o tempo, senhor da razão, cuidou não só de conferir veracidade à previsão como também de torná-la mais realista do que poderia supor a “rainha”. Dilma não precisa sair do País nem transferir temporariamente o cargo para virar coadjuvante do próprio governo.

A transformação tem ocorrido na prática, em cada declaração de Michel Temer, em cada encontro dele com setores organizados da sociedade e, agora com toda ênfase e clareza, na viagem oficial à Rússia e à Polônia, na qual o vice-presidente está à frente de uma comitiva de sete ministros e 51 empresários.

O vice mostrou-se em pleno exercício do poder de fato ao assegurar que Dilma termina o mandato, atribuindo essa convicção à evidência de que, segundo ele, a presidente “vem se recuperando cada vez mais”. Temer falou como se fosse ele o avalista do mandato de Dilma Rousseff. 

As palavras do vice são recebidas com mais atenção que as negativas da titular sobre a possibilidade de uma renúncia. À medida que os erros persistem vai deixando de ser um ato de vontade. Não passou despercebida a falácia a que Michel Temer recorreu na Rússia. É óbvio que ela não vem se recuperando. Pode até se reerguer, mas por enquanto afunda-se a cada gesto, ação, declaração ou decisão. 

Enquanto a presidente se esconde, o vice se expõe. Quando leva ministros e empresários em missão de negócios e dá a declaração que deu, Michel Temer está exercendo o papel de chefe da Nação aos olhos de quem importa: o empresariado, os caciques da política, a população que vê a foto e lê a notícia. 

Ainda mais se seus aliados mais importantes, em destaque o ex-presidente Lula, silenciam sobre o assunto, deixando a defesa do mandato da titular ao encargo do suspeito número um. 

Encontro marcado. Lideranças do PMDB negam que estejam conversando com o PSDB sobre o desenho do cenário político na hipótese de um pós-Dilma antecipado. Não é verdade. Conversam sim e defendem a necessidade de uma conversa franca entre os presidentes dos dois partidos. 

Sinuca de bico. Com a avaliação dos líderes partidários de que o pacote do ajuste fiscal terá “tramitação dura”, eles estão dizendo que a missão de aprovar a volta da CPMF é quase impossível. E o governo, quando se dispõe a propor uma solução amplamente repudiada de antemão, transmite as seguintes mensagens: está numa sinuca, sem saída, e por isso mesmo vai jogar duro com o Congresso.

Não tem, contudo, instrumentos eficazes à mão. O único e último recurso é construir uma narrativa segundo a qual o Congresso levará o País ao desastre se negar apoio às medidas do Executivo. O êxito dessa estratégia, no entanto, está diretamente ligado ao grau de confiabilidade de que dispõe o Palácio do Planalto junto à sociedade. E este, como se sabe, numa escala de 0 a 100, não chega a oito. Número equivalente ao porcentual dos cidadãos contentes com a atual administração.

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