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Eliane Cantanhêde
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O vice

O vice-presidente Michel Temer tem sido impecável, sempre solícito ao defender o governo, amolecer o coração de Renan Calheiros e de Eduardo Cunha e, agora, atuar firmemente para aprovar o ajuste fiscal. Mas... não convém a ninguém, muito menos a Dilma Rousseff e ao PT, esquecer que, em caso de afastamento da presidente, Temer é o beneficiário direto.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2015 | 02h04

No Brasil, se o (ou a) presidente cai, por impeachment ou renúncia, quem assume é o vice, e José Sarney assumiu mesmo sem Tancredo Neves ter tomado posse. A exceção é se o afastamento é da chapa, ou seja, do presidente e do vice. Se ocorrer na primeira metade do mandato, há eleições diretas; na segunda, eleições indiretas, pelo Congresso.

Temos que a desgraça de Dilma corresponderia à glória de Temer e, até por isso, ou principalmente por isso, ele tem de se comportar como a mulher de César: além de ser honesto com Dilma (e não estar louco pela Presidência), ele tem de parecer honesto (sem parecer nem um pouco interessado no lugar dela). E é exatamente isso que o sempre discreto, mas afirmativo, Temer tem feito: demonstra lealdade a Dilma e desinteresse pelo cargo.

Pelo sim, pelo não, é bom ficar de olho e ouvidos abertos para os passos e falas do vice. A última foi bem distante das crises em Brasília, em circunstância pomposa. Após se encontrar com o presidente de Portugal, Cavaco Silva, ele declarou a jornalistas que o impeachment é "impensável": "Quanto menos se falar nesse assunto, maior será a tranquilidade institucional que o país precisa neste momento".

Além de vice-presidente e agora coordenador político do governo, Temer está na Europa para encontros com o presidente e o primeiro-ministro de Portugal e com o rei e o primeiro-ministro da Espanha. Com um séquito de jornalistas atrás, o que não é muito comum em viagens de meros vices. É que, hoje, Temer não é mero vice.

A voz dele contra o impeachment ecoa no ambiente internacional e engrossa a de líderes políticos de grande porte. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso puxou a fila, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, veio atrás (pelo menos no caso do uso dos bancos públicos para cobrir buracos do Tesouro) e a sensata Marina Silva endossa.

Muito crítica ao governo, Marina disse ao Estado que há um "buraco negro institucional, político e econômico", que Dilma sofre uma espécie de "cassação branca" e que é patente a responsabilidade política indireta da presidente pelos escândalos na Petrobrás: "Como você é ministro de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente da República e tudo isso acontece? Há uma responsabilidade política".

Apesar disso, Marina usou o mesmo tom cauteloso de FHC sobre o impeachment. Para ela, não há como passar por cima da "materialidade dos fatos" e é preciso "responsabilidade" dos líderes.

Há, porém, dois problemas. Um é político: o PSDB uniu-se a PPS, PV e DEM para se aproximar da chamada "voz das ruas" e aguarda ainda nesta semana pareceres jurídicos sobre o afastamento da presidente. O outro é a realidade: como faltam três anos e oito meses de governo, Dilma tem tempo de dar a volta por cima, mas as chances de tudo continuar ruim, e até piorar, são grandes...

Num trecho da entrevista cortado por falta de espaço, Marina disse que "não acredita que, no momento, exista um único brasileiro com consciência sobre o que está acontecendo que não tenha o temor" de que os setores mais vulneráveis paguem o maior preço pela crise, com seus empregos, o pouco poder aquisitivo que conquistaram e programas como Pronatec e ProUni.

Pois é, a economia precisa sair do fundo do poço, trazendo com ela a recuperação de ao menos parte da popularidade de Dilma e seu comando político. Do contrário, a coisa vai ficar cada vez mais feia. Quem estará à espreita? O tão leal Temer. E ninguém vai poder abrir a boca para dizer que ele trabalhou contra...

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