Gilberto Amendola|Estadão
Gilberto Amendola|Estadão

O vermelho e o negro no meio da crise política brasileira

Quando a escolha da cor da roupa que se vai usar vira a primeira decisão político-partidária do dia

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

17 de março de 2016 | 16h24

Com que roupa eu vou? Teve brasileiro que acordou pensando naquele samba do Noel, abriu o guarda-roupa e fez sua primeira escolha político-partidária do dia. Na zona cinzenta de uma república turbulenta, muitos tiveram que refletir no chuveiro se o mais adequado à estacão seria usar o pretinho básico do luto institucional ou o vermelho da paixão companheira. Cada cor um risco, um time, um partido, uma carta de intenções. Um ser ou não ser antes do café da manhã. Que difícil!

Mas numa época em que até comer uma esfiha de 0,99 centavos parece uma escolha política, nada pode ser desconsiderado. 

Um problemão pra quem está por fora das novas tendências da moda, pra quem é do tipo que pega a primeira coisa que pula da gaveta e pronto. Tipo o Alan Junior, de 26 anos, ambulante que atua na região da Avenida Paulista e sai de casa antes do nascer do sol. Pois é, o Alan pegou uma camiseta limpa, passada, imitação de uma marca cara, e foi vender jaca. JACA, GENTE! 

Mas ao chegar na região foi logo advertido por um parceiro de comércio popular: "Você saiu de casa todo de vermelho, até o boné! Isso vai dar treta", avisou Rodrigo Tiago da Silva. 

Da Silva, que vestia amarelo clarinho, explicou que o vermelho podia atrapalhar o negócio das jacas, que ninguém iria comprar uma fruta de um petista. "Fosse você, eu trocava essa camiseta", aconselhou.

Junior negou qualquer petismo, diz que usou sem pensar, que mal sabe quem é Sérgio Moro, mas já ouviu muita gente tripudiar do seu vermelho. "Não sabia que era proibido", reclamou. Até agora, as vendas de jacas na Avenida Paulista não tinham sido afetadas. 

Além do Junior,  teve um vendedor da Kibon que nem quis falar com o repórter. O rapaz tinha acabado de ser chamado de comunista por uma senhora que jurava pagar todos os seus impostos em dia. O problema é que o uniforme do sorveteiro era vermelho. Azar dele. Quem sabe amanhã ele sai pra vender Chicabon vestindo apenas sua indignação verde-amarela.

Teve mais gente que saiu de casa sem problematizar a cor da roupa. A Ana Lúcia de Almeida, de 26 anos, secretária, estranhou o tanto de gente que fez sinal de positivo pra ela do caminho de casa até o trabalho. Ué? Normal. Ana saiu de casa com um vestido preto, um pretinho básico, deve estar uma arara com o governo Dilma, não é? "O quê? Tô de preto porque preto emagrece. Preciso perder uns 6 ou 7 quilos pra voltar a usar outra cor", contou.

É engraçado, mas com simbolismos não se brinca. Pelo menos na Avenida Paulista, o verde, amarelo e azul foram as cores do dia. Quem estava vestindo essas cores era justamente alguém como o Rogério Lima, estudante de comunicação que não vê a hora de novas eleições serem convocadas. "O bom dessa coisas das cores é que você sabe com quem está lidando. Em um momento como esse, acho que facilita", disse. Perto do Lima, um rapaz de verde falou baixinho que era "Lula na cabeça", armou-se então um pequeno entreveiro, uma discussão difícil de acompanhar, por misturar golpe militar com golpe comunista e essas coisas que a gente já se acostumou a ler na internet.

Por fim, uma garota na calçada abriu um pacotinho de M&Ms, um gaiato vestido de militar mostrou algum senso de humor e disparou. "É melhor comer todos os vermelhos primeiro."

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