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O trilhão voltou

Cifra era uma espécie de questão de honra para o ministro Paulo Guedes, que chegou a externar sua contrariedade diante da possibilidade de o texto ser desidratado

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2019 | 03h01

Ajusta daqui, mexe dali, e a reforma da Previdência voltou à cifra simbólica de R$ 1 trilhão de “economia” em dez anos. Era uma espécie de questão de honra para o ministro Paulo Guedes, que chegou a externar sua contrariedade diante da possibilidade de o texto ser desidratado.

Mas sua equipe, responsável por divulgar, ato contínuo à leitura do parecer final do relatório do tucano Samuel Moreira, o cálculo do trilhão realcançado, garante que não fez uma conta de chegada em nome da narrativa e da cifra redonda. O mérito, garante o secretário especial da Previdência, Rogério Marinho, é todo do relator, que teria introduzido mudanças capazes de, ao mesmo tempo, garantir o ganho fiscal e corrigir eventuais injustiças sociais.

Os confetes destinados a Moreira, aliás, fazem parte da tentativa do governo de distensionar a relação com o Parlamento e facilitar a aprovação do parecer na comissão e no plenário. 

Nos últimos dias da negociação, governo e relator também afinaram a estratégia de inverter o ônus da inclusão ou não de Estados e municípios no texto da reforma: se governadores e prefeitos estão assim tão interessados em ser contemplados pela emenda, que trabalhem para assegurar os votos em plenário para que voltem a ela. 

A ideia é “tirar do armário” sobretudo a esquerda, que faz discurso público contra o texto enquanto sonhava, em privado, com a unificação do sistema que lhe retirasse o desgaste de ter de encarar Assembleias e Câmaras em busca de aprovação.

 

DESGASTE: Aliados de Bolsonaro temem reação de policiais e militares

Os protestos de policiais em frente ao Congresso e a queixa feita pelo folclórico Sargento Isidório na comissão especial, de que Jair Bolsonaro “traiu as corporações” que o elegeram, preocupam aliados do presidente. A avaliação é de que Bolsonaro é extremamente sensível a qualquer arranhão em sua imagem no núcleo duro que o apoiou desde o primeiro momento, e que os protestos, caso se avolumem e se espalhem, podem levar a que o próprio presidente se empenhe pessoalmente em flexibilizar as regras para os fardados – o que, se acontecer, vai ferir de morte o discurso de equidade e de que todos têm de fazer sacrifícios pela reforma.

MILITARES: Ataques de Carlos a Heleno refletem objeções passadas

Os ataques de Carlos Bolsonaro ao general Augusto Heleno remontam a episódios em que o chefe do Gabinete de Segurança Institucional se contrapôs ao filho do presidente, na transição e no início do governo. Além de episódio relatado em recente reportagem da revista piauí, em que Heleno, juntamente com o já defenestrado Santos Cruz, impediu a criação de uma estrutura paralela à Abin, integrantes do governo recordam de ao menos uma vez em que o general e o filho “02” divergiram quanto à ideia de transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

Heleno advertiu que, caso isso ocorresse, começariam a explodir bombas no metrô de São Paulo e do Rio. Ainda assim, o ataque surpreendeu aliados, já que, nas últimas semanas, Heleno vem se esforçando para demonstrar incondicional apoio a Bolsonaro, não se eximindo de dar murro na mesa de café da manhã com a imprensa, fazer flexões de braço de terno e subir em caminhão de som em manifestação.

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