O tiro no pé do PT

Os petistas de Pernambuco colocaram o Diretório Nacional contra a parede

João Domingos, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2018 | 03h00

O acordo entre PT e PSB que isolou Ciro Gomes na campanha eleitoral pode ter liquidado o candidato do PDT. Mas não dá para dizer que foi aquele sucesso que os petistas calculavam que seria. Para acabar com Ciro eleitoralmente juntaram-se o “golpista” Michel Temer, que fez pressão sobre os partidos do Centrão, ameaçando tirar-lhes os cargos que têm no governo caso se bandeassem para os lados do candidato do PDT, e Lula, que da cadeia ordenou à direção nacional do PT que garantisse a neutralidade do PSB. Esse fato inusitado será explorado na campanha por guardar alguma semelhança com peças publicitárias de 2014 veiculadas por Dilma Rousseff. Insinuava-se nelas que, se eleita, Marina Silva se aliaria aos banqueiros e roubaria a comida dos pobres. 

Do lado de Temer falou o fígado, pois Ciro costuma dizer que o Palácio do Planalto foi “dominado por uma quadrilha” e que o presidente é o chefe dela. Do lado de Lula, falou a necessidade de exterminar aquele que vinha se tornando uma ameaça à hegemonia do PT no campo da centro-esquerda. Isso o PT não perdoa. Até porque, se perder essa condição, Lula deixa de ter a importância que tem. Outro vai ocupar o lugar dele.

Desde o impeachment de Dilma Rousseff e o processo e a prisão de Lula, o PT nunca esteve tão unido. Isso depois de um desastre na eleição municipal de 2016, em que muita gente chegou a prever não o fim do PT, mas o seu encolhimento à metade, talvez menos que isso. Pois essa unidade petista, que se escondia atrás do afastamento de Dilma e da prisão de Lula em Curitiba, corre riscos por causa do acordo PT/PSB. Há rebeliões no partido numa hora complicada, às vésperas do pedido de registro da candidatura de Lula no TSE. No Ceará, por exemplo, onde o PT rifou a candidatura à reeleição do senador José Pimentel, abrindo espaço para o apoio do governador petista Camilo Santana, mesmo que informal, à reeleição do “golpista” Eunício Oliveira (MDB), há forte reação ao isolamento de Ciro. Especula-se, mesmo entre petistas, que o governador, aliado de Ciro, tenderia a apoiá-lo no Estado. 

Já em Pernambuco, por 230 votos, 20 contrários e uma abstenção, o Encontro Estadual do PT manteve a candidatura de Marília Arraes ao governo. Com a decisão, os petistas de Pernambuco colocaram o Diretório Nacional contra a parede. Uma intervenção, como determinam as regras, nesse caso, tornou-se um perigo. O jeito foi gastar saliva, negociar com Marília para que ela se candidate ao governo daqui a quatro anos. Quem se curvou foi a direção nacional, não o PT local. 

O acordo que garantiu a neutralidade do PSB teve reflexos fortes também em Minas Gerais. O plano do PT era de que, afastada a candidatura de Marcio Lacerda ao governo, os socialistas apoiassem a reeleição do governador Fernando Pimentel. Deu tudo errado. Lacerda decidiu não retirar a candidatura. Em reação, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, anunciou intervenção no PSB mineiro. Com isso, Lacerda ficou livre para anunciar apoio a Ciro ou, em última caso, aderir à campanha do tucano Antonio Anastasia. Como está sendo negociada a desistência da candidatura do deputado Rodrigo Pacheco, do DEM, ao governo do Estado, e a entrada dele na coligação de Anastasia, não será surpresa se o ex-governador ganhar força suficiente para vencer no primeiro turno. Alguns núcleos de pensadores do PT, informados do que ocorre em Minas, já trabalham com a ideia de que Pimentel, impopular, pode perder no primeiro turno. Lacerda seria o candidato no qual os que não gostam do senador Aécio Neves descarregariam seus votos. Sem Lacerda, e com Aécio longe da campanha, esses antipetistas poderão optar por Anastasia.

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