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Eliane Cantanhêde
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O tempo, senhor da razão

A questão central de 2022 é se o tempo conta a favor ou contra Bolsonaro e Lula

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 23h00

O presidente Jair Bolsonaro vai afundando em denúncias e investigações na CPI da Covid, no Supremo, no Ministério Público e na Polícia Federal e passa a conviver com manifestações nas ruas do País e uma lista robusta de pedidos de impeachment. Porém, muita água ainda vai rolar e a questão é se o tempo conta a favor ou contra Bolsonaro.

Para a oposição, cada vez mais ampliada e ativa, Bolsonaro exagerou no seu negacionismo tacanho na pandemia, desdenhou das agora mais de 520 mil mortes, disseminou a ameaça de golpe e se perdeu num caminho sem volta. 

Quanto mais o tempo passa e a CPI avança, mais demolidor será o arsenal de notícias e denúncias. A economia, com desemprego desesperador, não vai zerar a conta.

No cálculo da oposição, o melhor momento da recuperação da economia é 2021, porque a base é muito baixa e infla o índice, mas ainda assim essa recuperação é lenta e deve ser ainda mais lenta em 2022. Além disso, o PIB é um dado subjetivo e o que pesa eleitoralmente são inflação, que está acima da meta; juros, que bateram no menor índice da história, mas já voltaram a subir e vão continuar subindo; e o desemprego, desesperador e resiliente.

Já para o governo e os bolsonaristas, cada vez mais restritos e belicosos, o tempo conta a favor de Bolsonaro. A pandemia está passando. A recuperação econômica é frágil, mas é melhor do que o mercado previa e a Bolsa já recebeu R$ 48 bilhões de capital estrangeiro. Bolsonaro, que não dá a mínima para as contas públicas, vai despejar milhões, ou bilhões, em bolsões estratégicos do eleitorado (policiais, evangélicos, mais pobres...) E o fantasma do PT ainda é forte cabo eleitoral de Bolsonaro.

No cálculo governista, a questão chave é vacina. Todo o desgaste está concentrado em 2021, com as mortes, a confirmação do quanto Bolsonaro vetou a Coronavac e as revelações de como ele e seu governo desprezaram a Pfizer e só contrataram o mínimo do consórcio Covax Facility, mas correram alegremente atrás de vacinas mequetrefes, de origem estranha, personagens estranhos, empresas estranhas e preços estratosféricos.

Para os bolsonaristas, “daqui pra frente, tudo será diferente”, como canta Roberto Carlos. A vacinação completa, que neste julho mal atinge 13% dos brasileiros, terá avançado muito e deverá chegar a 2022 com 70% da população imunizada, impactando positivamente o humor nacional, o número de mortes, a economia, os serviços e os empregos na “hora certa”. A oposição focará nos erros evidentes, o governo tentará capitalizar os resultados.

Falta combinar com dois adversários: a variante Delta, que se alastra pelo mundo e é mais contagiosa, e Jair Bolsonaro, que capricha em gol contra. Enquanto a oposição centra fogo no desastre criminoso e documentado da contratação de vacinas, a saída óbvia de Bolsonaro é atrair para ele o avanço da imunização. 

Ele, porém, insiste até hoje em atacar a Coronavac. Não fosse ela, a vacinação no Brasil teria começado muito tempo depois e ainda mais gente morreria.

Há dúvidas, também, se o tempo corre a favor ou contra o ex-presidente Lula. Mesmo que Bolsonaro continue se deteriorando, as condições dele igualmente tendem a piorar. Até aqui, Lula é beneficiado por decisões do Supremo e por estar fora do foco. Quando a campanha esquentar, volta tudo de novo, com força: junto com os inegáveis méritos dos governos Lula, voltam Dilma Rousseff, mensalão, petrolão, fundos de pensão...

O pau quebra mesmo quando a eleição vai para as ruas, a TV e os algoritmos na internet. Bolsonaro e Lula já são vidraças e haverá estilhaços para todo lado, o que estimula, mas ainda não se configura, a tão esperada terceira via. Espaço há, mas falta o principal: quem, e com quem? 

*É COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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