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O tempo na política

Ele não é linear e, se não é usado com sabedoria, pode ser fatal para reputações e pretensões

Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2017 | 03h00

Michel Temer ganhou tempo. É provável que a decisão apertada da Câmara pelo arquivamento da segunda denúncia de Rodrigo Janot tenha lhe garantido a conclusão do mandato, em dezembro de 2018. Mas esse tempo é suficiente para que o vice que ascendeu ao poder após a queda de Dilma Rousseff deixe algum legado capaz de apagar a impopularidade recorde e o “feito" de ter sido o primeiro e único presidente denunciado por crimes supostamente ocorridos no exercício do mandato? Difícil.

Um ano é pouco para pôr em marcha uma agenda legislativa ambiciosa e uma administração eficiente e inovadora. Por outro lado, pode ser uma eternidade para alguém que terá de monitorar o humor de aliados de toda uma vida que estão presos e podem resolver falar.

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O tempo na política não é linear, e, se não é usado com sabedoria, pode ser fatal para reputações, mandatos e pretensões eleitorais. Temer não é o único político a ter a ampulheta como ameaça. Basta ver o exemplo de Aécio Neves. Saiu fortalecido das urnas em 2014, com mais de 49 milhões de votos, disposto a levar a cabo uma ação para cassar Dilma Rousseff e credenciado para liderar a oposição.

Três anos depois, tenta se reestruturar para disputar uma eleição de deputado federal que lhe garanta foro privilegiado para responder às graves acusações que pesam contra ele, depois de escapar de ser afastado do mandato. E mesmo o projeto “humilde” de voltar à Câmara parece arriscado para alguém que viu corroída sua credibilidade na velocidade da luz.

Ainda no PSDB há outro exemplo de como o mau gerenciamento do “timing” pode levar a pique até projetos eleitoralmente viáveis. Parece ser esse, hoje, o caso do prefeito paulistano João Doria Jr. – cujo perfil, escrevi mais de uma vez neste espaço, tinha tudo para encaixar no que o eleitorado parece buscar em 2018.

Mas a pressa e a inexperiência política fizeram com que Doria “acelerasse” demais, abusando do próprio bordão. O prefeito queimou a largada e ameaça bater no muro caso não saiba replanejar a corrida.

Recém-eleito no primeiro turno numa cidade com gestão mais complexa do que um bom networking pode garantir, Doria se pôs sem disfarçar em campanha à Presidência, passando ao seu eleitor a ideia de que quer se livrar do pepino e ao padrinho, Geraldo Alckmin, a mensagem de deslealdade. Uma combinação fatal.

Tomou o risco baseado numa expectativa, que lhe foi vendida pelos acólitos e por um time já designado para 2018, de que viraria sensação nacional e rapidamente “escalaria” nas pesquisas. Pode até ter se tornado mais conhecido fora de São Paulo, mas isso não se rendeu imediatamente altos índices de intenção de votos capazes de desafiar a primazia de Alckmin no partido.

Mais experiente, ainda que menos vistoso, o governador fez o oposto do pupilo e soube usar o tempo a seu favor. Seu mandato não tem bordão nem grandes marcas, mas tem o alicerce de uma longa dinastia tucana no mais poderoso Estado do País. 

Alckmin também não foi afoito ao tentar queimar Aécio na fogueira partidária — algo que provavelmente o mineiro teria feito, se as posições estivessem invertidas. Com isso, conseguiu se aproximar de seu grupo e aumentar sua antes limitada influência interna.

A um ano das eleições a maré parece favorecer quem vem consolidando uma imagem aos poucos, e de forma persistente. Os menos de 12 meses que nos separam das urnas vão mostrar como cada um dos atores da sucessão – do próprio presidente aos contendores – vão se firmar ou virar pó numa realidade política que muda cada vez mais rápido, mas na qual às vezes correr demais não é o mais indicado.

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