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Eliane Cantanhêde
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O tempo histórico

A história é feita de ondas e a esquerda e o PT não morreram

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2016 | 06h00

Uma geração inteira viu, e sentiu, três vezes, a queda do Muro de Berlim: o fim do comunismo e de seus mitos, a realidade surpreendente de ídolos como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir e, agora, os votos pró-Brexit, contra o acordo de paz na Colômbia e alçando Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, com tudo o que ele representa.

O comunismo, que foi significado de igualdade e justiça para intelectuais, trabalhadores e jovens do mundo todo, deixou um saldo de milhões de assassinatos e um rastro de miséria, atraso e corrupção. A travessia da Berlim Oriental para a Ocidental logo após a queda do Muro foi uma experiência demolidora – e educativa.

Descobrir o Sartre e a Simone de Beauvoir do livro Tête-a-Tête, de Hazel Rowley, foi outro choque. Muito diferentes dos libertários que embalaram a vanguarda do século passado, ele surge ali como machista, dominador, com um harém particular, e ela, manipulada, sem maturidade emocional, jogando fora seus amores e chances pela dependência doentia do brilho intelectual e hipnotizante de Sartre.

Agora, a sequência de absurdos, ou, vá lá, do que nos parece absurdo. Com o Brexit, que ninguém levava a sério, o Reino Unido recuou no tempo, isolou-se da União Europeia e deixou o mundo perplexo – e preocupado. Com um referendo, a Colômbia renegou o acordo de paz com as Farc que deu o prêmio Nobel da Paz ao presidente Juan Manuel Santos.

Por fim, Trump na maior potência. A vitória não foi do Partido Republicano – apesar de fazer a maioria na Câmara e no Senado – e nem mesmo, ou não só, do próprio Trump. Foi uma vitória de uma ideologia: contra minorias, imigrantes, muçulmanos, abertura econômica, protocolos climáticos e a globalização. Do desejo de retomar aqueles EUA que podem tudo e mandam em todos.

Lá, os eleitores estariam exaustos depois de dois governos democratas consecutivos, com uma crise econômica de bom tamanho no meio. Cá, no Brasil, depois de três governos e meio do PT, encerrados com crises na economia e na política, embaladas pela Lava Jato. Enfim, seria uma guinada à direita, com a negação à política e aos políticos “tradicionais”.

O PT discute o seu hoje e o seu amanhã nesse contexto, e com o ex-presidente Lula debatendo-se inutilmente contra o redemoinho da Lava Jato e ex-ministros, ex-presidentes, ex-tesoureiros e parlamentares já tragados por ela. Só resta ao partido ter paciência e evitar uma debandada que seja mortal.

A guerra de imagem e 2018 estão perdidos, com ou sem a candidatura Lula, mas isso é só uma etapa. O PT, mesmo muito ferido, não foi substituído por outras forças capazes de abrir horizontes para a esquerda e não está morto (mesmo que mude o nome). É dar tempo ao tempo para ver como evolui a Lava Jato, se a economia entra ou nãos nos trilhos, quando, e se, as pessoas vão passar a atribuir perda de emprego, renda e lazer ao governo Temer e à “direita”. Assim como os eleitos em 2016 emergiram do naufrágio do PT, o PT torce e trabalha para emergir, lá adiante, do naufrágio dos adversários.

Em resumo: a história é feita de ondas, quem está em alta hoje poderá estar em baixa amanhã, quem está em baixa hoje poderá estar em alta amanhã. É o tempo histórico, que mitificava o comunismo, Sartre e Simone e hoje elege Brexit e Trump e entope as redes sociais de loas a Bolsonaro. É hora da boa ortodoxia e do mau conservadorismo, mas isso não será para sempre. O PT, no Brasil, e a esquerda, no mundo, terão tempo para lamber as feridas, admitir que dinheiro não nasce em árvore, o populismo é danoso para o povo e o poder é para servir, não para se servir. O desgaste natural de quem quer que esteja no poder fará o resto.

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