Fredrik Sandberg/EFE (25/3/2017)
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João Gabriel de Lima
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O que temos em comum com a terra da ‘jantelagen’

O uniforme da seleção sueca de futebol é igual ao do Brasil. Não é a única semelhança entre os dois países

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2021 | 03h00

Taylor Swift, Ariana Grande, Justin Timberlake, Pink, Childish Gambino, Adele e Maroon 5. Esses artistas têm algo em comum: todos eles devem parte de seu sucesso a produtores ou compositores suecos. O episódio “Síndrome de Estocolmo”, da ótima série This is pop, disponível no Netflix, mostra como a Suécia se tornou celeiro de hitmakers. Criou-se uma cena inovadora e vibrante, de variedade inimaginável para quem associava o país ao padrão chiclete do grupo Abba. Que virou – literalmente – tema de museu em Estocolmo. 

Os suecos também são líderes em outra seara: a preocupação com o futuro do planeta. A primeira conferência do clima foi realizada em 1972 em Estocolmo. Na época, a principal questão era a poluição nas grandes cidades, e havia muitas divergências entre os países. Os ricos queriam conter as emissões de gases. Os pobres achavam que, para se desenvolver, precisavam poluir. 

Passaram-se quase 50 anos. Ricos e pobres sabem hoje que a mudança climática é questão vital para o nosso futuro. Estocolmo passou da teoria à prática. A uma hora de caminhada do centro, em meio a ilhas e pontes – que valeram à cidade o apelido de “Veneza do Norte” – chega-se a dois bairros onde se ensaia um futuro sustentável. Ao sul, Hammarby Sjostad tem um dos melhores sistemas de reciclagem do planeta – os resíduos são encaminhados a usinas por via subterrânea, e o retorno se dá na forma de aquecimento e eletricidade, seguindo os preceitos da “economia circular”. 

Ao norte, Royal Seaport se destaca pela arquitetura: edifícios desenhados para poupar energia, painéis solares por todos os lados e uma antiga fábrica lindamente transformada em centro cultural. “O respeito ao meio ambiente faz parte da cultura do país, e une esquerda e direita, jovens e velhos”, diz o escritor sueco Henrik Jönsson, correspondente do jornal Daegens Nyheter no Rio de Janeiro. Ele é o personagem do minipodcast da semana – e fala também sobre a polêmica gestão da pandemia em seu país.

Nos parques de Estocolmo é comum ver crianças de camiseta amarela. O uniforme da seleção sueca de futebol é igual ao do Brasil. Não é a única semelhança entre os dois países. Nosso movimento ambientalista também floresceu a partir de uma conferência do clima, a Rio-92. À sua maneira, o Brasil é igualmente referência na área de sustentabilidade. Aprovamos um Código Florestal admirado internacionalmente, e nosso sistema de monitoramento de desmatamento é um dos melhores do mundo. 

Os nórdicos têm uma palavra para definir o que consideram o seu principal traço de caráter: “jantelagen”. Significa algo como “fazer o que tem que ser feito, sem gabar-se disso”. Poucos sabem da cena pop na Suécia, até porque eles não alardeiam: “Só queremos mostrar que somos bons, e não falar sobre aquilo em que somos bons”, diz a compositora Laleh, autora do sucesso Stone Cold, de Demi Lovato. Pura “jantelagen”. 

Temos em comum com os suecos o uniforme de futebol, a vibração musical e a preocupação ambiental. Os suecos seguem firmes em seu planejamento de cidades sustentáveis. Enquanto isso, perdemos a mão em nosso objetivo de preservar florestas. Com modéstia ou sem modéstia – não é uma característica dos brasileiros – sabemos o que é necessário para voltar a ser referência em sustentabilidade. Falta fazer a coisa certa – e, principalmente, escolher governantes que ajudem em vez de atrapalhar.

Minipodcast com Henrik Jonsson:

Sobre Royal Seaport

Sobre Hammarby Sjostad

Reportagem sobre bairros sustentáveis de Estocolmo

A série This is pop no Netflix


*ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTORANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE LISBOA

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