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João Gabriel de Lima
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O que leva o Congresso a ouvir a voz das ruas

No Brasil, grupos que pensam de forma distinta não conseguem marchar juntos

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 05h00

Os que não votaram em Jair Bolsonaro estão nas ruas pedindo impeachment desde 29 de maio, data da primeira manifestação organizada por movimentos de esquerda. No sábado, dia 3, veio a adesão de militantes do PSDB – que, numa cena lamentável, foram agredidos por integrantes do Partido da Causa Operária, o PCO. Os tucanos não se intimidaram e prometem comparecer em maior número à próxima manifestação.

Os que votaram em Jair Bolsonaro – mas que, nas palavras do deputado Kim Kataguiri, formam o bloco dos “traídos” – marcaram protestos para o dia 12 de setembro. As manifestações reunirão movimentos como o MBL e o Vem Pra Rua e devem contar com a presença de vários integrantes do Partido Novo. A sigla de João Amoêdo aderiu oficialmente ao impeachment na segunda-feira, dia 5.

Todas essas forças à direita e à esquerda abraçaram uma tarefa dificílima: convencer o presidente da Câmara, Arthur Lira, a abrir um processo de impeachment contra seu aliado Jair Bolsonaro. O que pode levar o Congresso a ouvir a voz das ruas? 

Um olhar para além da Cordilheira dos Andes traz algumas pistas. No domingo, dia 4, os chilenos instalaram uma assembleia constituinte que redefinirá o pacto social do país. “Essa constituinte só foi possível devido à pressão dos protestos”, diz o cientista político chileno Adrián Albala, professor da Universidade de Brasília. Ele é o personagem do minipodcast da semana.

O Chile é um caso de estudo na América Latina. É um campeão de crescimento econômico na redemocratização. Segundo estimativas do FMI, citadas em artigo pelo economista Samuel Pessoa, o PIB do Chile irá se expandir 182% entre 1990 e 2022, contra 69% na Argentina e 44% no Brasil. Com esse desempenho, o Chile reduziu a pobreza extrema a níveis abaixo de 5%, embora a desigualdade permaneça alta – maior do que a de Argentina e Uruguai, sem chegar ao nível do Brasil.

Os chilenos vêm ocupando as ruas desde 2006 com duas reivindicações recorrentes. A primeira era tornar o sistema eleitoral mais justo – regras herdadas da ditadura de Augusto Pinochet impediam que o parlamento refletisse os pleitos de forma acurada. Reforma constitucional em 2015 atacou o problema. A segunda é a criação de um Estado de bem-estar social. Os chilenos querem se aproximar dos modelos “europeus” de Brasil e Argentina.

“Ser pobre no Chile é, muitas vezes, pior do que ser pobre no Brasil”, diz Albala. “No Chile não há nada parecido com um SUS, e a previdência não garante uma velhice digna aos cidadãos vulneráveis.” Tais reivindicações uniram diversos setores da sociedade chilena nos protestos de outubro de 2019. O uso de violência contra os manifestantes ajudou a cimentar a solidariedade entre grupos com pensamentos diferentes. As ruas ficaram cheias.

Reivindicações claras, ruas cheias e união de diversos setores parecem ser os fatores de sucesso dos protestos no Chile. No Brasil, esquerdas e parte das direitas convergem na reivindicação: o impeachment de um presidente cuja rejeição aumenta a cada dia. É difícil, no entanto, que as ruas fiquem cheias como no Chile. Há uma pandemia em curso. E, no Brasil, aparentemente, grupos que pensam de forma distinta não conseguem marchar juntos.

O Congresso, no entanto, é um espelho da sociedade. Parlamentares se comovem com uma causa quando ela é abraçada por seus eleitores potenciais. Talvez não importe se marcham juntos ou separados.

Para saber mais

Minipodcast com Adrián Albala

Reportagem do Estadão sobre as manifestações contra Bolsonaro

Reportagem do Estadão sobre as direitas contra Bolsonaro

Artigo do economista Samuel Pessoa sobre o Chile

Reportagem do Estadão sobre a assembleia constituinte chilena

 

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