''O que fizeram comigo foi uma violência''

Ricardo Tosto de Oliveira Carvalho: advogado; Advogado preso pela PF pede afastamento do conselho do BNDES e quer uma auditoria sobre os empréstimos sob suspeita

Entrevista com

Fausto Macedo e Rodrigo Pereira, O Estadao de S.Paulo

28 de abril de 2008 | 00h00

Ricardo Tosto de Oliveira Carvalho, advogado que a Operação Santa Tereza aponta como beneficiário de suposto desvio de recursos públicos, assinou ontem, às 15h25, carta ao presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, pedindo seu afastamento do cargo de conselheiro da instituição. Ele requereu, ainda, abertura de auditoria interna sobre concessão de empréstimos para as prefeituras de Praia Grande e do Guarujá e para as Lojas Marisa - contratos que estão sob suspeita da Polícia Federal."Peço minha saída em caráter temporário até que sejam apurados os fatos em questão, diante das acusações de que exerci tráfico de influência junto ao BNDES para a liberação desses empréstimos", escreveu Tosto, que ficou 56 horas detido na Custódia da PF, por decisão judicial. "Eu quero que investiguem logo. Depois, vou avaliar. Quero colaborar. O BNDES é um banco muito sério, sua estrutura é séria e seu presidente (Coutinho) é um profissional transparente."Sob efeito de comprimidos Valium e em meio a constantes crises de choro ao lado da mulher e dos três filhos pequenos, um de 7 anos, dois de 4, Tosto invoca a história do irmão mais velho do presidente Lula, Genival Ignácio da Silva, o Vavá, que a Operação Xeque-Mate pegou no grampo, em 2007. "Já que ele (Lula) falou de mim, eu lembro que o Vavá, irmão dele, foi pego dizendo que o Lula ia ajudar nisso e naquilo. As pessoas usam seu nome. Só que o Lula não foi preso", comparou.Em sua casa, no Morumbi, em companhia de 500 cartas, telegramas e e-mails que imprimiu - solidariedade e apoio de colegas, magistrados e políticos - o advogado, de 45 anos, falou sobre a Santa Tereza.A PF diz que o sr. usava o celular de uma secretária para evitar o grampo porque a investigação secreta foi vazada.Não teve vazamento nenhum, eu não sabia de nada. É loucura. Advogo para empresas importantes e para políticos também. Acompanhamos compra de empresas, casos de grande valor econômico. Vivemos na grampolândia, o Brasil é o reino dos grampos. Em respeito a questões estratégicas e sensíveis relacionadas a nossos clientes, temos que evitar espionagem.O grampo federal pega o sr. falando com um suspeito (Marcos Mantovani) sobre determinado inquérito policial.Mas eu não estava falando com ele sobre o inquérito BNDES. Conheço o Mantovani há 15 anos, advogo para ele há mais de 10. Era meu amigo, era, eu achava que era meu amigo. Conversei com ele ao telefone sobre um inquérito de seu interesse. É um inquérito problemático para ele, não tem nada a ver com BNDES. O segredo profissional é decisivo. Até com advogados e com jornalistas, muitas vezes, eu uso outro aparelho de telefone. A gente vive do sigilo. Por que a Santa Tereza o pegou?Porque Mantovani e João Pedro (de Moura, lobista do esquema) falaram o meu nome nas ligações. Acho que fui preso pelo que eu sou, não pelo que eu fiz. Uma vingança invisível, não sei ainda. Ora, se eu tenho sucesso como profissional da advocacia, um escritório com mais de 300 colaboradores e uma carteira de clientes importantes, por que iria participar de organização para atacar os cofres públicos? Com tudo isso que construí na minha carreira eu vou me meter numa idiotice, um primarismo desses?Seu nome pode ter sido usado?Estou começando a ter certeza. Quando você tem algum sucesso, algum prestígio, usar seu nome é muito fácil. O Vavá usou o nome do Lula, mas o Lula não foi preso. O que fizeram comigo foi uma violência, as algemas. Foi com intuito de me desmoralizar, humilhar. O Brasil está à beira de um Estado policialesco, de terror. O que fizeram comigo é um recado para todos os profissionais liberais e os empresários bem sucedidos e corajosos, gente que tem na sua honra um ativo precioso. Cuidado, amanhã você pode ser um novo Tosto. A prisão temporária é uma tortura. Fui preso sem saber o motivo.A PF o liga à partilha de dinheiro desviado do BNDES.É um absurdo, que provem. O expediente relativo a empréstimos não passa pelas minhas mãos. Conselheiro não tem competência para autorizar liberação de dinheiro. Não era diretor, não tinha poder.O que o sr. fazia no BNDES?Você não tem poder decisório nenhum, são discussões macroeconômicas. O conselho de administração não tem autoridade para liberar dinheiro, define as linhas que o banco vai seguir. Como eu iria liberar (verbas)? Não vão encontrar uma única assinatura minha autorizando. Os contratos não passavam pelas minhas mãos, isso é competência exclusiva de um corpo técnico. Nem sabia por onde davam entrada os protocolos de projetos. Pela experiência que tive no banco posso dizer que é quase impossível ter alguém que seja atendido lá sem condição de receber empréstimo.Abre mão do sigilo bancário?Já entreguei meus extratos, os últimos três meses de movimentação.Por que foi para o BNDES?Quando a Força Sindical me convidou achei que ia ser uma forma de entender o Brasil. Sempre achei o BNDES a central de inteligência do País. Pensei que poderia aprender bastante sobre quanto o Brasil vai crescer, em que setores, como funciona um banco de desenvolvimento. Entrei em agosto, pretendia ficar dois anos.É amigo do lobista João Pedro?Eu conheço, mas não sou amigo. Eu o substituí no BNDES. Ele estava lá fazia muitos anos. Foi para o gabinete do Paulinho (deputado Paulinho da Força, PDT-SP).A PF sugere que Paulinho foi beneficiário de partilha.Eu não posso avaliar, não vou ser leviano. As pessoas são inocentes até que provem o contrário. Infelizmente, hoje você é culpado até que provem sua inocência. Acho que tem que apurar.Nunca interferi em qualquer pedido ao BNDES. Não sabia de financiamentos e não conheço os beneficiários, Lojas Marisa nem o prefeito de Praia Grande (Alberto Mourão). O do Guarujá (Farid Madi) vi num evento do PDT. Não sou filiado ao PDT, a partido nenhum. Quem é: Ricardo TostoFormado em Direito pelo Mackenzie, é titular do escritório Leite, Tosto e Barros Advogados Atua na advocacia empresarial e tributáriaPreside a Comissão de Reforma do Judiciário da OAB-SP

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