PAULO UCHôA | PAGOS
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‘O que conta é a situação de paralisia do País’

Principal governador do PSB defende o impeachment de Dilma, mas diz que ‘melhor caminho’ é nova eleição

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2016 | 05h00

Antes de ser chamado para o primeiro time do governador Eduardo Campos, de Pernambuco, tragicamente falecido em agosto de 2014, o economista Paulo Câmara passou 12 anos de seus ainda 43 como auditor de contas públicas do Tribunal de Contas do Estado. Licenciou-se do emprego, em 2007, para virar secretário de Campos – da Administração e da Fazenda, entre outros cargos. Em 2014, com o peso da tragédia, elegeu-se governador, pelo PSB, no 1.º turno, com 68% dos votos. É o único governador do País com a expertise de auditor – o que o deixa a cavaleiro para comentar as questões técnicas do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

É também o único a ser casado com uma juíza de carreira, a dra. Ana Elisa, mãe de seus dois filhos, de 6 e 11 anos. Nesta segunda, o PSB decidirá, majoritariamente, que é favorável ao afastamento da presidente.

Em dezembro do ano passado, logo depois que o pedido de impeachment foi aceito, o sr. foi um dos 16 governadores que assinaram uma “Carta pela legalidade”, em defesa da presidente Dilma. Mudou alguma coisa de lá para cá?

Ocorreram muitos fatos que aumentaram demais a instabilidade do País, que ainda não foram devidamente julgados, mas que põem em xeque a continuidade, a credibilidade e a confiança de um governo. O processo de impeachment é, claramente, um julgamento político e, como tal, não pode se ater apenas aos fatos denunciados.

A quais outros fatos o sr. se refere?

O desemprego e a inflação aumentando, uma recessão que há 80 anos não se via igual, dois anos seguidos de PIB negativo. Diante de uma situação como essa, a gente pensa muito no futuro do País e das instituições, e na necessidade de buscar alternativas.

E como a discussão do impeachment entra na equação?

Há muito questionamento sobre esse processo do impeachment, mas é um fato concreto que ele vai ocorrer. Nesta segunda-feira, o PSB vai se posicionar majoritariamente a favor. Mas tenho uma posição muito clara de que o melhor caminho é a realização de novas eleições.

O sr. é favorável ao impeachment, então, menos pelos fatos denunciados, e mais pela questão da crise política?

É mais o ambiente institucional e político do que efetivamente os fatos, porque a gente não pode prejulgar fatos que não foram julgados. O Judiciário vai ter o momento de se pronunciar, pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O que conta, agora, é a situação de paralisia do País, a desconfiança por parte de parcela da população e a necessidade de uma definição. E o mais próximo de se ter uma definição é o processo de impeachment.

O sr. é auditor de contas públicas, trabalhou no Tribunal de Conta do Estado, foi secretário da Administração e da Fazenda. Houve ou não crime de responsabilidade da presidente, tecnicamente falando, como afirma o pedido de impeachment?

Os fatos em si são muito graves. Isso aí ninguém contesta, nem pode contestar. A forma com que se utilizou de artifícios contábeis, a chamada contabilidade criativa, e mais o que ficou conhecido como pedaladas mostram que havia uma clara intenção de ausência da transparência em cima de resultados fiscais. Foram práticas desnecessárias e contrárias às regras da transparência. Essa maquiagem originou uma falta de cobrança porque ninguém conhecia exatamente o que estava sendo feito. Quando se começou a pensar em buscar soluções, o dano já estava muito maior.

O que o sr. achou do relatório do deputado Jovair Arantes, relator da comissão, que propôs a aceitação do pedido de impeachment?

Ele coloca a questão em cima da responsabilidade pelas pedaladas. Mas na hora que se julgar, vai se julgar além disso. É um julgamento político.

A oposição conseguirá os 342 votos necessários para a abertura do processo?

Está indefinido. Não dá pra fazer nenhum tipo de prognóstico em relação ao que vai acontecer.

Qual é a sua preocupação nos dois cenários: se passar e for aceito no Senado, entra o vice Michel Temer. Se não passar, segue a presidente Dilma?

Ambos vão ter que ter uma capacidade muito grande de união, de juntar pessoas que tenham o propósito de ajudar o Brasil a dar respostas, a criar um ambiente que possa retomar o investimento e o emprego.

Ao mesmo tempo em que defende o impeachment, o sr. também fala em novas eleições. Como se resolve essa contradição?

Tem um processo de impeachment a ser julgado agora. Mas, com certeza, após o julgamento e a decisão, vão acontecer questionamentos de ambas as decisões – caso o presidente Temer assuma, caso a presidente Dilma fique. Isso pode ser muito prejudicial para o País. O que pode dar mais legitimidade para se avançar é ter novas eleições, dentro de uma ordem democrática, dentro da devida discussão no congresso para a aprovação de uma PEC específica que determine isso. Agora, a gente não pode esperar que isso ocorra. Tem que trabalhar com o fato concreto – e o fato concreto de hoje é a votação do processo de impeachment e, posteriormente, com certeza, essa votação do processo lá no TSE.

Como o sr. vê a possibilidade de a presidente Dilma ficar?

Ela vai ter que fazer um projeto e um conjunto de ações que mudem o ambiente brasileiro. Vai ter que realmente buscar unidade – e aí, talvez, o presidente Lula possa ter um papel importante para abrir portas que hoje estão totalmente fechadas, coisa que ela não conseguiu fazer no último ano e meio.

E com a hipótese Michel Temer?

Eu já estive com o presidente Temer. Ele tem se mostrado muito favorável a essa abertura de diálogo, a essa busca da união nacional. Está com a disposição de fazer isso.

O PSB somaria com o presidente Temer neste processo?

Somaria, sem dúvida nenhuma. Quem mais tem tido a preocupação de nos procurar, de abrir essas portas, é o presidente Temer. Mas isso também vale para a presidente Dilma.

Como é que o sr. define a sua relação, como governador, com o governo federal e com a presidente Dilma?

A presidente Dilma sempre ouviu todos os pleitos que Pernambuco levou ao governo federal. Eu tenho muito respeito por ela, que sempre se mostrou muito atenta. O que nos preocupa é a forma com que a política econômica foi conduzida e o agravamento da crise política. Levamos ao governo federal soluções para as questões de Pernambuco. Infelizmente, muitas das soluções que foram levadas não tiveram consequência, principalmente em obras que deveriam ter tido uma prioridade maior. Também faltou sensibilidade em relação às operações de crédito dos Estados menos endividados, caso de Pernambuco. Mas também tivemos ações de apoio importantes, como no combate ao mosquito Aedes aegypti aqui em Pernambuco.

Como o sr. vê o deputado Eduardo Cunha, investigado de todos os lados, no comando desse processo?

O processo de impeachment tem todos esses questionamentos, principalmente pela forma com que foi aberto pelo Eduardo Cunha, num momento em que ele claramente quis se vingar do governo, por outras questões, e colocou isso como uma vingança pessoal. A gente não pode concordar com essas práticas. Eduardo Cunha tem tantos senões em relação à sua conduta, posta em xeque, o que também precisa ser resolvido, com respostas quanto à permanência dele na presidência da Câmara.

Como o sr. vê essa oferta de cargos, por parte do governo, em troca de votos contra o impeachment?

Desconheço o que está noticiado e espero que essa prática não exista. No PSB, não há nenhum tipo de sinalização de que isso possa ter ocorrido.

Paulo Câmara, com 43 anos, é formado em Economia. Atuou como auditor de contas públicas do Tribunal de Contas de Pernambuco durante 12 anos. Foi secretário da Administração e da Fazenda de Eduardo Campos.

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