Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

O problema é a quantidade de gente que ainda prefere o joio ao trigo, diz Barroso

Declarações do ministro acontecem em meio a uma mobilização de simpatizantes do ex-presidente Lula, condenado e preso pela Lava Jato, para quem Barroso negou hc na semana passada

Aline Bronzati, enviada especial, e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2018 | 11h14

RIO - A um dia da sessão de plenário que pode rever prisão após segunda instância na Corte, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, disse que o momento é de refundação das suas bases éticas e "enfrentamento à corrupção", o problema é quando as pessoas preferem o "joio" ao "trigo", em analogia a políticos corruptos e honestos. Ele disse ainda que o modo de fazer política e negócios no Brasil é "estarrecedor", mas que vê com bons olhos demandas da sociedade por mais "integridade".

"Constato imensa demanda da sociedade por integridade e patriotismo", disse, em palestra no 7º Encontro de Resseguro do Rio de Janeiro. Para ele, o Brasil vive atualmente um momento de refundação das suas bases éticas e de enfrentamento à corrupção, que deve ser aproveitado para "parar de varrer essa sujeira para debaixo do tapete". "A sociedade já parou de varrer. Já estamos conseguindo separar o joio do trigo. O problema é a quantidade de gente que ainda prefere o joio. Somente uma mobilização da sociedade nos ajudará a virar essa página", afirmou.

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Barroso votou, na semana passada, pela rejeição do habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Lava Jato. Em sua decisão, ele defendeu que os ministros da Corte devem levar em conta a opinião pública. O próprio Lula, em seu último discurso antes de ser preso, criticou o posicionamento do ministro, sem citá-lo diretamente. As declarações desta terça acontecem um dia antes de sessão de plenário do Supremo, em que os ministros podem rever a decisão após segunda instância.

É preciso criar no Brasil, defendeu Barroso, uma cultura de "não aceitação do inaceitável" e de "praticar padrões éticos normais". Ele se disse contrário ao moralismo e a "vingadores mascarados", mas afirmou que não é possível imaginar que o modelo de política e de negócios em que a corrupção prevalece permite a criação de um grande país.

"O modo de fazer política e negócios no Brasil é estarrecedor", destacou. Segundo o ministro, o modelo de nomeações de políticos para empresas estatais e órgãos públicos e toda a cadeia de corrupção que vem na sequência prevalece no ambiente de negócios no Brasil. Para ele, esse é o modelo "padrão" de se fazer política e negócios no País. "Esse é o paradigma que podemos romper. Ainda não foi rompido. As coisas ainda funcionam largamente assim", alertou o ministro.

Em sua palestra, Barroso ainda distinguiu dois grupos de corruptos. "A reação oligárquica tem dois lotes: dos que não querem ser punidos pelos mal feitos que fizeram e o lote dos que não querem ficar honestos nem daqui para frente. Gostariam que tudo permanecesse como está; não sabem viver sem que seja com o dinheiro do outros, com dinheiro desviado", afirmou.

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O ministro do STF afirmou ainda que a corrupção tem custo alto país e que do lado financeiro corresponde a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro num total de R$ 100 bilhões, segundo a Fiesp. Além do custo financeiro, conforme ele, há também um custo social, que é o dinheiro da corrupção e as más práticas que dificultam o avanço na educação, saúde e melhoria dos transportes.

Concluiu dizendo que é possível um país criar um ambiente de integridade do bem, da boa fé. "Tenho dito e gosto de dizer isso: uma democracia comporta projetos liberais e conservadores. Tem lugar para todo mundo. Só não podemos ter projetos desonestos. Integridade não é ideologia. Vem antes", finalizou.

Reforma política. A reforma política, um dos temas mais caros a Barroso, também foi abordada na fala do ministro do Supremo. "É um problema institucional. Precisamos de uma reforma política capaz de baratear o custo da eleição, aumentar a representatividade parlamentares e facilitar a governabilidade", disse.

Barroso afirmou ainda que o Brasil adotou um sistema eleitoral partidário e que, passada uma semana do voto, as pessoas já não se lembram mais os candidatos que escolheram. Segundo ele, esse modelo partidário sustenta outro, que é o de saque ao dinheiro público.

Modelos alternativos, porém, conforme Barroso, não são a melhor saída. "Governar com forças armadas é muito pior. A alternativa que nos resta é a política aprimorada", destacou o ministro.

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