O primeirão da fila

Doria vai bem, mas é uma incógnita; a bússola, hoje, aponta para Alckmin no PSDB

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

31 Março 2017 | 03h00

O prefeito João Doria se encaixa bem no figurino de candidato a presidente da República, quando o empreiteiro Marcelo Odebrecht confirma que antes ninguém era eleito sem caixa dois e buscam-se ansiosamente nomes alternativos para a sucessão de Michel Temer – que não estejam na Lava Jato e, além disso, tenham perfil de gestor e conheçam o setor privado, mas tenham real vínculo partidário e não neguem a política. Mas, atenção!, é muito cedo para apostar todas as fichas em quem acaba de chegar e ainda tem de mostrar a que veio.

Com expressão confiável, desenvoltura jovial, imagem de empresário bem-sucedido e um casamento adequado, Doria parece perfeito demais, talvez perfeito demais para ser verdade. E ele fez mais: reuniu a essas qualidades intrínsecas um bom marketing explícito, depois de uma vitória espetacular em primeiro turno para a principal prefeitura do País. Fantasiou-se de gari pelas madrugadas, multou secretários atrasados e ganhou generosa mídia ao enfrentar pichadores. 

É assim que Doria vai ocupando o vazio deixado no PSDB a partir das citações (diretas) a Aécio Neves e José Serra e (acessórias) a Geraldo Alckmin na Lava Jato. Quanto mais os candidatos óbvios vão deixando de ser óbvios, mais o novato Doria ocupa espaços muito além do Estado de São Paulo, sendo considerado e considerando-se presidenciável.

Porém... diz a experiência que na política, como certamente na física e talvez na vida, tudo o que cresce muito rápido e antes do tempo acaba murchando com igual intensidade. Afinal, o que Doria fez de tão fantástico para, em três meses de gestão, já virar candidato à Presidência da República? Qualquer unha encravada pode esvaziar a imagem em ascensão.

Nada contra Doria, que vai bem nas pesquisas, atrai a atenção nacional e está lançando as 50 metas de sua gestão (referência aos “50 anos em 5” de JK?), mas não custa ir devagar com o andor, até se ter certeza de que esse santo não é de barro. Pode efetivamente ter uma trajetória de êxito até subir, um dia, a rampa do Planalto. Mas precisa, antes, mostrar serviço real, consolidar sua liderança, conquistar confiança popular, amadurecer politicamente, para não ser percebido como um modismo a mais, um Celso Russomanno a mais.

Até lá, a bússola política aponta para o seu padrinho, o governador Geraldo Alckmin, que está assumindo cada vez mais ostensivamente, para o PSDB, o PTB, o PSB..., a pretensão de disputar 2018. Ele não tem o mesmo pendor de Doria para o marketing agressivo (Alckmin fantasiado de gari?!), mas reúne atributos pessoais parecidos e condições políticas mais sólidas para almejar a legenda do PSDB.

Não tão jovial e simpático, Alckmin é um sujeito certinho, médico, religioso, com mulher bonita, que agrega algo fundamental: experiência. Assumiu o governo do principal Estado em 2001, com a morte do guru Mario Covas, até hoje uma boa referência política, e já está no quarto mandato. 

Enquanto o prefeito entra no rastro das dificuldades dos tucanos na Lava Jato e se coloca como alternativa no PSDB, o governador está além: entra no rastro não só dos tucanos, mas dos outros presidenciáveis do PMDB e dos demais partidos aliados. Se Temer fracassar, arrastará junto os aliados. Mas, se vencer a corrida de obstáculo, será grande eleitor. 

Para isso, Temer terá de superar o julgamento da chapa PT-PMDB no TSE, resistir à Lava Jato sobre ministros e aliados, aprovar a reforma da Previdência e entregar uma economia saneada em 2018... Lá no final, estarão perfilados os do seu campo político que sobreviverem à avalanche. Caso Alckmin esteja entre eles, tudo indica, hoje, que será o primeirão da fila.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.