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O presidente Bolsonaro foi dormir moderado ontem. Como será que vai acordar hoje?

Será no modo moderado ou no modo de sempre, armado até os dentes contra tudo e todos?

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 03h00

O presidente Jair Bolsonaro foi dormir ontem moderado, defensor da harmonia entre os três Poderes e de bem até com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes, com quem conversou ao telefone, selando uma trégua. Resta saber como Bolsonaro vai acordar hoje. No modo moderado ou no modo de sempre, armado até os dentes contra tudo e todos?

No manifesto que distribuiu por escrito e assinado, por influência do seu antecessor, Michel Temer, Bolsonaro atribuiu toda a sua fúria contra o Supremo e particularmente Alexandre de Moraes ao “calor do momento”. Puxa! O calor nos palácios da Alvorada e do Planalto deve estar de matar e o tal “momento” é longo: todo mês, toda semana, todo dia, toda hora.

Foi preciso a ação de um bombeiro do calibre de Michel Temer, constitucionalista e um homem de extrema elegância, que presidiu a Câmara três vezes e assumiu a Presidência da República em condições totalmente adversárias, após o impeachment de Dilma Rousseff.

Temer já tinha recebido um pedido de socorro do general Luiz Eduardo Ramos, secretário-geral da Presidência, para ajudar a “conter” Bolsonaro que, segundo ele, “não ouve ninguém”. Pois é, ouviu Temer. Bom para o País, a economia, a estabilidade política e o próprio Bolsonaro, que, apesar da obsessão por armas, tem uma péssima mira: vive dando tiro no próprio pé.

Não dá para tapar o sol com a peneira: os atos de 7 de Setembro, que não foram a favor de nada, só a favor do próprio Bolsonaro e contra o Supremo e a democracia, foram um sucesso para ele. Mas, em vez de comemorar, de transmitir segurança e alegria – como gostaria Ramos – o presidente jogou tudo fora ao reagir com raiva, ameaças, agressões.

Um erro grave nos esportes e na política é subestimar adversários. É imperdoável as esquerdas e a oposição em geral tentarem reduzir o peso político dos atos, que tiveram expressiva participação popular. Ok. Não havia 500 mil em Brasília nem 2 milhões a 3 milhões em São Paulo, como esperava Bolsonaro, mas as imagens não mentem. Tinha muita gente, sim, muito mais do que o razoável em meio à pandemia, o desemprego e a miséria, com um presidente que não governa, vive de messianismo.

Mas, em vez de comemorar, Bolsonaro atiçou a multidão crédula contra os Poderes e anunciou que não cumpriria mais ordem judicial. Assim, atraiu contra si chuvas, trovoadas, a volta da palavra impeachment, uma dúzia de partidos, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e a ira do Supremo e do TSE, em brilhantes discursos de seus presidentes, Luiz Fux e Luís Roberto Barroso.

A nova moda de Bolsonaro é dizer que não vai ser preso e soltar um grito de guerra: “Ou vitória ou morte”. Sabe-se lá o que se passa pela cabeça do presidente, mas o fato é que ele, finalmente, pediu ajuda para um bom psicólogo – nova qualificação de Temer, que obteve um recuo espetacular de Bolsonaro, que passa a falar em Executivo, Legislativo e Judiciário “trabalhando juntos em favor do povo e todos respeitando a Constituição”.

Além disso, Bolsonaro conta com algo muito visível: a incompetência e a mesquinharia da oposição. Vem aí o 12 de setembro, que pode ser uma imensa resposta ao 7 de Setembro bolsonarista, mas não será se o PT e o PSOL excluírem o MBL e o Vem Para a Rua e todos perderem uma energia enorme discutindo qual será a cor da manifestação. Que tal o branco? Cada um pinta, nesse branco, a sua própria cor, atendendo ao grito de guerra do Cidadania: “Agora é fora Bolsonaro! 2022 fica para depois”.

Ficam duas dúvidas, portanto: Bolsonaro vai manter a moderação de ontem, ou é mais um fogo de palha? E a oposição, vai ter ou não juízo e senso de consequência? Sei lá, mas ambas as respostas não parecem animadoras.

COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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