'O pessoal ouvia de longe as cornetas', diz agricultora

Passados quase cem anos da Guerra do Contestado, as marcas de violência do Exército e da milícia da Lumber permanecem fortes na região onde ocorreu o conflito

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 18h00

Manhã nublada de novembro. BR-116, altura de Campo Alto, Santa Cecília, um dos municípios mais pobres de Santa Catarina. A um quilômetro de um posto da Polícia Rodoviária Federal, o Estado encontra a agricultora Maria Simão, 91 anos, e seu filho Capitulino Martins dos Santos, 56 anos. Estão vagando pela estrada. As buzinas e os arrancos de motores de caminhões e carretas que trafegam na rodovia prejudicam a gravação da conversa com Maria Simão.

 

 

Maria Simão, com cerca de um metro e vinte de altura, corpo franzindo, usa lenço roxo e um cajado de Guamirim, como "São João Maria", observa. Ela veste uma jaqueta preta esfarrapada, uma saia remendada, uma blusa por cima de outra para enfrentar o frio do planalto, avolumando o corpo frágil, e botas. No bolso da jaqueta, guarda um saco de fumo de rolo.

 

Ela reproduz o som das cornetas dos militares anunciando os ataques, como descrevia sua mãe. "O pessoal, os jagunços, ouvia de longe as cornetas dos soldados", relata. Maria Simão diz que não consegue dormir quando lembra das histórias narradas pela mãe, uma sobrevivente do reduto de Santa Maria.

 

Maria teve sete filhos. Capitulino foi o único que não se casou. Vive com ela. "Eu cuido da mãe, eu cuido da mãe", diz Capitulino, sem esconder o orgulho. "Ele foi o único bobão. É doente, sofre dos ouvidos. Nem pode aprender bem os estudos", afirma. "Não tinha escola naquele tempo. Eu mesma só vim saber de escola depois que me casei."

 

Lembra que os pais João Simão e a mãe Celestina Florzina eram "amigos no tempo da guerra. Eles conseguiram escapar dos ataques dos soldados e das represálias dos líderes rebeldes. "Minha mãe contava que vivia fugindo, correndo, tentando escapar. Era muita gente ensanguentada no chão que, para andar, era preciso ir com as pontas dos pés", diz. "Ela contava coisas e mais coisas que dá medo. E me disse: 'Você vai ficar para contar a história. Você vai aguentar. E estou aguentando, graças a Deus."

 

Fala das crianças no tempo da guerra. "Os que nasciam na guerra morriam. A criança não tinha o que comer, morria tudo", diz. A cena bíblica de soldados de Herodes matando bebês é constante no imaginário das guerras populares brasileiras. No Contestado não é diferente. "Eles jogavam a criança para o alto e abriam com a espada."

 

Os pais de Maria Simão se casaram após a saída do Exército da região. "Depois que teve a guerra, a minha mãe se firmou na vida e teve oito filhos, quatro mulheres e quatro piás", afirma. "Minha mãe me contava que quem tinha fé passava o rio, quem não tinha não passava." Enquanto acende um cigarro de palha, fala da descendência e da religião. "Dizem que sou bugre. Não sei se sou mestiça ou bugre. Só sei que estou vivendo no mundo. E não gosto de gente que não é católica."

 

Capitulino agradece a conversa. No Contestado, é muito comum a pessoa que pede uma informação ou um favor ouvir ao final da conversa um agradecimento. Aqui, a cordialidade se apresenta junto com um certo servilismo, possivelmente marca de tempos de dominação e barbárie. E, embora tenha vivido momentos históricos de privação e terror, o caboclo não é fechado como o sulista descendente de europeus. Ele apenas evita falar de participação dos ancestrais na guerra.

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