O passado não passou

No Supremo Tribunal Federal serão revisitados nesta semana todos os atos e os fatos que resultaram na maior crise política do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio da Silva e dizimaram a imagem do PT como baluarte da ética, mas nem o governo nem o partido dão sinais de que compreenderam a gravidade do episódio.Não tiraram nenhuma lição da adversidade, não aproveitaram para fazer daquele limão uma limonada, não mudaram seus procedimentos. Ao contrário.O governo continua em passo firme na marcha da cooptação parlamentar em troca de favores mediante o uso dos instrumentos de Estado e o partido está prestes a realizar seu terceiro congresso sem exibir resquícios de arrependimento e sem sentir a menor necessidade de se dedicar ao trabalho da autocrítica.O único "sentimento" captado a partir do Palácio do Planalto é o da preocupação com o desconforto político que trará ao ambiente o processo de decisão do STF sobre a abertura, ou não, de processo contra a "organização criminosa" montada no governo com vistas à perpetuação do poder, denunciada em 2005 pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza.No PT, o pensamento predominante é o de "bola para frente". Sentido este razoável se o partido tivesse ao menos feito uma boa revisão de suas condutas, se tivesse punido a contento os autores das malfeitorias e se tivesse reconhecido que não houve "erros", mas que foram cometidos crimes.Como não fez nada disso, ensaiou algumas punições de fancaria, ajudou vários dos acusados a se manter na vida pública e forneceu a alguns deles socorro profissional - a uns menos, como contratos de consultoria a Silvio Pereira, a outros mais, como contratos robustos de publicidade a Duda Mendonça -, o PT continua devedor.Reclamam, o partido e o governo, do remexer de feridas agora, a propósito do julgamento no Supremo Tribunal Federal, mas não se dão conta de que elas arderão mais justamente porque foram por eles mantidas abertas.O governo, depois das demissões de ministros, acha que fez o que tinha de fazer. Zerou o jogo só porque Lula foi reeleito, continua com a popularidade preservada em setores mais numerosos da sociedade e, aparentemente, consegue convencê-los de que o presidente é uma coisa, o governo outra, o partido uma terceira.Por este raciocínio, todos atuam com total independência, sendo, assim, perfeitamente possível a figura-chave desse conjunto não saber de coisa alguma a respeito dos movimentos das outras peças.O partido, depois da troca nominal do comando, também considerou resolvida a questão. Deputados de destaque no escândalo foram reeleitos, partidos aliados envolvidos no esquema de financiamento de campanhas continuaram fazendo parte da aliança e agora, como dizem os dirigentes, qualquer ato interno de remoção dos entulhos equivale à promoção de uma "caça às bruxas".Ambos se impõem um ledo auto-engano e, por causa dele, repetem, dois anos depois, os equívocos essenciais que levaram a uma situação da qual escaparam eleitoral, mas não politicamente e, muito menos, eticamente falando.Os votos recebidos não apagam os fatos havidos. Prova será dada a partir de quarta-feira, quando governo e partido - seja qual for o resultado no Supremo - reviverão todos aqueles episódios sem privar da prerrogativa de dizer, em alto e bom som, com a consciência leve dos justos, que pertencem a um passado que já passou.Campanha do 3O presidente da agência de publicidade Master, Antônio Freitas, responsável pela campanha institucional do Banco do Brasil que adota como emblema o número "3" e suscita a desconfiança de que seja propaganda subliminar em favor de um terceiro mandato para o presidente Lula, envia e-mail a título de esclarecimento.Segundo ele, a campanha não tem esse fim nem pode ser qualificada de "ineficaz" por causa do hermetismo da mensagem resultante da soma dos algarismos 2 e 1 da Agenda 21 sobre o desenvolvimento sustentável.O objetivo é contribuir com o tema e conseguir o engajamento da população. "Daí a sugestão para a adoção de três atitudes positivas no dia-a-dia dos brasileiros, em favor da sustentabilidade, mostrando que cada um de nós pode ser um agente transformador do futuro", diz Antônio Freitas.De acordo com o publicitário, ao longo da campanha serão apresentados casos e exemplos em que, "com a intervenção do Banco do Brasil", muitas situações foram e estão sendo mudadas em todo o País."Ao falar sobre desenvolvimento sustentável, o BB acompanha as grandes marcas do País e do mundo. Sai do discurso auto-referencial e, de forma inédita, convida para que cada um faça algo, como o próprio banco já faz. E talvez a polêmica seja justamente motivada por isso, porque ninguém pensou nisso antes. A campanha ?Decida pelo 3? segue as recomendações das lideranças mundiais do setor que pedem mais ação e menos discurso."

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