''O Parlamento está de costas para a sociedade''

Para especialista, defesa de interesses privados na Casa tem preço alto, com danos de difícil reparação

Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

20 de agosto de 2009 | 00h00

Cláudio Couto, doutor em ciência política pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e professor da Fundação Getúlio Vargas, é estudioso da área de conflitos e coalizões políticas - caracterísitcas d o pano de fundo da votação de ontem no Conselho de Ética do Senado. Para Couto, o cenário que levou ao arquivamento das denúncias e representações contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), custará caro ao Parlamento, que insiste em sustentar oligarquias em detrimento da opinião popular. Como analisar o contexto dos arquivamentos?O acordo entre a base do governo e a oposição indica que há uma oligarquia que compõe a classe política profissionalizada no Brasil e, particularmente, a classe parlamentar. Falo em termos de oligarquia porque em uma situação em que mesmo governistas e oposicionistas, que a rigor disputam ferrenhamente o poder, conseguem entrar em acordo sobre uma questão tão divisiva como essa. O fato é que todos têm a perder com a continuidade das investigações, e os interesses comuns entre oposição e governo vão contra interesses que são entendidos pela sociedade como interesses de toda a sociedade. É a total dissociação da opinião popular?Creio que sim. O Parlamento está de costas tanto para a opinião pública quanto para a opinião social mais ampla. A sociedade de um modo geral se vê evidentemente contrariada com esse tipo de arquivamento, que ao meu entender solapa a legitimidade do Parlamento. Cada vez que o Parlamento toma decisões para proteger interesses privados de seus membros, entendidos eles como uma corporação, as pessoas vão entender que o Congresso é formado por um grupo de pessoas preocupado unicamente com os seus próprios ganhos, ilegítimas para ocupar os cargos que ocupam e transferindo essa ilegitimidade para a própria instituição. Esse é o preço mais alto que se paga.Como avalia o desenvolvimento da crise no PT?É uma crise porque é o principal partido do governo, o partido do presidente, e o presidente deixou muito claro desde o começo do processo que queria a preservação de José Sarney. Se o seu próprio partido tem uma divisão interna e tem gente que acha que o presidente está errado, é uma crise importante dentro do PT. Sobretudo quando algumas dessas lideranças são muito importantes dentro do partido. É complicado para eles justamente nessa hora em que princípios éticos estão sendo jogados fora pelo PT e em que o uso da coisa pública para fins privados pelo presidente do Senado se tornou tão evidente. Não é uma crise insuperável, mas não quer dizer que algumas cicatrizes não vão permanecer. Já há tantas cicatrizes no PT e essa seria mais uma.Como reformar uma instituição desacreditada?Em um prazo muito longo, com uma conduta diferenciada dos parlamentares. Mais um escândalo como esse mantém as coisas no péssimo nível que já se encontram. A recuperação vai demorar ainda mais.

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