O Novo, o moço e a renovação

Carlos Melo, professor do Insper e cientista político, analisa vitória do petista em SP

Carlos Melo, professor do Insper

28 de outubro de 2012 | 20h15

Fernando Haddad venceu; Lula é mesmo um forte. Derrotado fosse, o ex-presidente amargaria hoje seu maior fracasso: associada ao mensalão, a derrota seria interpretada como seu fim. Justos, então, os créditos: Lula acreditou, ousou, correu riscos. Mas, isto não facilita para novo prefeito: Haddad terá que provar que também é um forte. Se ampla estrada se abriu, longo será o caminho. E sua missão será percorrê-lo escrevendo uma nova história.

Ninguém sabe os desdobramentos do mensalão: o quanto pode transbordar para outros atores, incendiar novos rancores. Trata-se de um capítulo que deixou feridas e demarca um tipo de política que precisa ser superada. Não apenas retoricamente, como nas campanhas eleitorais, mas na prática, nos métodos e valores. Não se restringe isto ao PT e nem à Ação 470. O Julgamento, de algum modo, tratou de hábitos e costumes do sistema político.

É justo que o PT sinta-se hoje com alma lavada. Foi realmente seu maior suplício: a coincidência do julgamento com a eleição mexeu com muitos demônios. Mas, será um erro não exorcizá-los. Saber ganhar é mais importante que saber perder. Para Haddad será importante compreender que a vitória não absolve condenados, nem apaga a história. Mas, pode, no entanto, mais rapidamente virar a página. Permitir que se escreva com novas tintas, num novo alfabeto.

Separando as coisas, o eleitor deu chance e lição: no seu cálculo, as políticas públicas, o novo rosto e a perspectiva de novos métodos atuaram mais decisivamente do que o ressentimento. Foi uma escolha pela superação.

A oposição continuará criticando os mais pobres por defenderem seus legítimos interesses antes de se preocupar com o bolor de um sistema político que, entendem, não os representa? Seria improdutivo, mais uma vez. Precisa, então, compreender o recado: não se perdoou o Mensalão; mas não se aceitou o farisaísmo, como se o sistema político fosse bom e ruins fossem apenas esses mensaleiros. E os outros? A Justiça ainda dirá.

Melhor será compreender e discutir a política em outro nível. O estilo "nós não temos nada contra o Suplicy, só não queremos o PT mandando aqui" (Maluf, 1992), ressuscitado por Serra, é velho e cansou. Não tem a mesma força de um tempo em que o PT ainda não fora suficientemente testado, um PT sem políticas públicas a mostrar.

José Serra tinha muito a dizer, mas apostar nisso foi seu maior erro. E não foi um erro novo. Em 2006, Alckmin já o cometera e, em 2010, Serra também. A política é feita para superar impasses, olhar para o futuro, trazer o progresso. Não para enfiar o dedo nas feridas dos estropiados. Condenados pagam por seus crimes; a Justiça decide. Não se tripudia suas desgraças, nem se sapateia sobre seus caixões. Crueldade dá pouco voto.

Assim, como Dilma, em 2010, Haddad foi um estreante de desempenho excepcional, nas ruas, na TV, nos debates. Quem torcia para que o calouro se encolhesse diante do veterano, se decepcionou. Sabendo o tamanho do desgaste do PT, o candidato não se intimidou: foi em frente, insistiu teimosamente na necessidade de virar páginas; não "respondeu na mesma moeda", não aloprou. Empunhou um programa de governo, apontou críticas impessoais. Trouxe inovações, a começar pelo Bilhete Único Mensal, um inegável aggiornamento da cidade com o mundo.

Candidato, Haddad surfou a onda do "novo". Prefeito, não poderá fazê-lo servindo-se apenas do novo na idade, o moço. Dele se espera o novo de verdade, na reformulação de quadros e costumes. O novo, de fato. Voz ativa num PT que precisa de depuração; na política nacional que exige novos ares. Que não seja outro Collor, outro Pitta, pois comparado será. Que componha sem arrogância, mas não se deixe conduzir pelo atraso. Que conduza renovações múltiplas: na urbe, na política, nos valores. Não será fácil. Mas, "Non Ducor Duco" é o lema da Cidade que o escolheu.

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