O naufrágio de uma utopia brasileira

Há líderes tão rústicos, tão avessos à racionalidade que, durante o período de bonança, não sabem por que lideraram, e quando a decadência lhes bate à porta, não sabem por que deixaram de liderar. É certo que a vaidade e a capacidade analítica - que não se confunde com esperteza ou malandragem - têm um papel central nesse processo de autoconhecimento: quanto mais vaidoso e ignorante o líder, maior a sua tendência a atribuir a liderança que conquistou ao carisma pessoal ou ao poder de convencimento das palavras iluminadas que saem de sua boca.

Jean Marcel Carvalho França*, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2016 | 13h32

Daí a perplexidade em que muitos desses líderes instintivos são lançados quando as mesmas ideias, as mesmas palavras de ordem que outrora causavam tanta comoção nos ouvintes, devotos e não devotos, agora são motivo de riso, de galhofa e de escárnio - salvo, é claro, entre aqueles crentes mais fervorosos ou entre os que têm motivos inconfessáveis para continuar a acreditar.  

O ex-presidente Lula, conhecido pelo seu pouco gosto pela reflexão sistemática, é, pelo que se tem visto, um líder de tal espécie. Ao longo do seu reinado, o vaidoso e falastrão mandatário - auxiliado por jornalistas e intelectuais que, em pleno século XXI, pensavam estar concretizando os sonhos de Maio 68 - acreditou piamente que o apoio ao seu governo se devia aos seus encantos e talentos pessoais.

O séquito pensante que o acompanhava, por sua vez, sempre pronto a usar velhos conceitos para explicar novas situações, se embrenharam pelos caminhos da revelação, da conscientização: o povo humilde, trabalhador e secularmente excluído, graças a um líder operário forte, finalmente havia tomado consciência do seu lugar (oprimido) e do seu papel (virar o jogo). Isso tudo é muito bonito em tempos de bonança, pois dá ares messiânicos e fatalistas ao que é prosaico e contingente, mas mostra toda a sua singeleza e fragilidade quando a 'vaca está indo para o brejo' e a impopularidade se anuncia no horizonte.

Lula, pelo que deixa escapar em momentos de destempero, tende a crer que todo o mal decorre de uma traição. O povo humilde, virtuoso mas fútil, diante das primeiras adversidades econômicas e das intrigas mentirosas e sórdidas sobre a sua conduta e a do seu partido - intrigas espalhadas incansavelmente pelos bem nascidos através da tal mídia golpista -, decidiu colocá-lo de lado, logo ele, que moveu mundos e fundos por essa mesma gente humilde, retirando-a da miséria e do anonimato. Povo ingrato e manipulável pelos ricos, deve por vezes pensar o líder, afinal, ele diz as mesmas coisas, usa as mesmas metáforas, promete o mesmo paraíso, e o efeito de outrora não vem; ao contrário, as pessoas parecem estar fartas e descrentes das suas histórias.

Os tempos são tão bicudos que talvez o ex-presidente, perplexo diante de tão rápida e contundente perda de poder, tenha cogitado até mesmo dar razão àqueles 'teóricos universitários' do seu partido, àqueles a quem nunca deu crédito e a quem os seus 'instintos' de homem do povo sempre deslumbraram. É muito provável realmente que o povo, depois de receber tantos benefícios seus, esteja tomando gosto pelo luxo e mergulhando novamente na tal alienação, isto é, esteja ingenuamente e contra os seus próprios interesses aderindo à onda neoconservadora que toma conta do País, à onda que as perversas elites desencadearam depois de perceberem, com uma década e meia de retardo, que estavam perdendo os seus privilégios.

Mas será mesmo? O povo traiu o líder carismático ou o líder carismático nunca existiu? A alienação, a indiferença, voltou ou simplesmente, atropeladas pela dura vida cotidiana, as pessoas mudaram suas crenças e suas opiniões? O líder, talvez, não passe da encarnação de uma tara do brasileiro, que, de tempos em tempos, gosta de pensar que é possível alcançar a prosperidade interna e o sucesso no mundo sem muito dispêndio de energia, contando somente com as riquezas e talentos que Deus nos deu e as dádivas de um milagroso, justo e benevolente estado provedor. Uma tara que nos faz acreditar cegamente que Deus é brasileiro, que por aqui em se plantando tudo dá e dá sem muito esforço, que a inteligência, a perspicácia e a criatividade são apanágios naturais desta abençoada gente - 'o melhor do Brasil é o brasileiro' - e que qualquer crítica estrangeira ou nacional a tão virtuoso modelo civilizacional não passa de despeito, medo da alteridade ou perversidade de ricos.

Por mais de uma década, depois de respirarmos os ares ligeiramente liberais e cosmopolitas trazidos por FHC - ares tóxicos para o maniqueísmo, o localismo e a compadrice que historicamente nos habita -, o 'lulismo', aproveitando-se de uma conjuntura econômica e cultural favoráveis, parece ter traduzido e fomentado essa nossa patologia coletiva, esse nacionalismo ensimesmado, místico e improdutivo que ciclicamente emerge na sociedade brasileira. Mas o dinheiro acabou, a prosperidade como sempre não veio, o sucesso internacional mostrou-se ilusório e, para completar o quadro depressivo, o brasileiro constatou que os porta-vozes da utopia nacional cuidaram mais dos seus sonhos pessoais de ascensão social, sonhos mesquinhos, do que da construção do paraíso coletivo.

Dito em poucas palavras, o brasileiro aprendeu - uma vez mais e a duras penas - que não existe almoço grátis e que, quem diz o contrário, está mentindo e, sorrateiramente, depois de esvaziar a despensa, vai tentar fugir na hora de pagar a conta.

* Jean Marcel Carvalho França é professor de História do Brasil da Unesp de Franca

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