O mundo das estrelas está chegando à escola pública

Observar crateras na Lua ou acompanhar diferenças de brilho das estrelas, de dentro de salas de informática em escolas públicas. É a ambição de um grupo de astrônomos de vários institutos brasileiros, cujo projeto está importando telescópios unicamente para servir à educação de crianças e adolescentes. Pela internet, alunos e professores poderão monitorar os equipamentos e fazer observações do espaço em tempo real. O programa está ainda na sua fase piloto, que inclui a participação de seis universidades do País, cada uma delas com uma escola parceira. "Os alunos poderão ter contato com um projeto científico de verdade", diz o coordenador do projeto intitulado Observatórios Virtuais, Laerte Sodré Junior, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). A inspiração para a iniciativa veio de um programa americano semelhante, patrocinado pela Nasa, que usa um telescópio do Instituto Tecnológico da Califórnia. A diferença é que o projeto brasileiro não custará nada para as escolas que quiserem participar. O software - que permite monitorar os telescópios, única exigência para a observação do espaço - está sendo desenvolvido pelo IAG e ficará disponível no próprio site do projeto. A previsão é que o programa saia da fase piloto e seja aberto a todos em meados do ano que vem. "Se o software fosse comercial, as escolas públicas não teriam dinheiro para comprá-lo", diz Sodré. Os colégios, portanto, precisarão apenas de computadores ligados à internet. O processo de observação espacial nas escolas é simples, garantem os astrônomos. Ninguém vai colocar o olho no telescópio. O aluno ou o professor digitará no computador a coordenada do objeto a ser observado e o aparelho se movimentará seguindo essas recomendações. "É como se estivesse dizendo a ele: direcione para a lua ou para uma determinada estrela", explica o pesquisador do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) André de Castro Milone. Isso porque o computador permite exposições mais prolongadas e coleta imagens melhores que o olho humano. O Inpe acaba de concluir a construção de um mini-observatório em São José do Campos para abrigar um dos telescópios. Aulas na madrugada Nessa fase inicial, quem vai aproveitar o telescópio de São Paulo, que ficará no IAG, são os alunos do ensino médio do Colégio Bandeirantes. "Apenas com conhecimentos básicos de geografia, os estudantes conseguem fazer o reconhecimento do céu e trazem uma nova discussão para a escola", diz o professor do Bandeirantes Airton Borges, que participará da execução do projeto. O colégio, que pretende construir seu próprio observatório astronômico, foi um dos únicos no País a participar há dois anos do programa americano que inspirou o brasileiro. Por causa do fuso horário, alunos como Caio Cícero Gomes, de 18 anos, iam sem reclamar às 3 horas da madrugada para a escola. Pela internet, eles tinham acesso às imagens feitas pelo telescópio na Califórnia, como outros cerca de 10 mil estudantes pelos Estados Unidos e pelo mundo. "Procurávamos por supernovas em galáxias que o telescópio podia visualizar", conta, animado. "Aprendemos astronomia de verdade e não como está nos livros." A experiência acabou influenciando sua escolha da profissão e hoje Caio é calouro no curso de Física da USP. Nos Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Santa Catarina o projeto piloto será realizado com estudantes de escolas públicas. No Rio Grande do Sul, será em um colégio militar. Os professores de todas elas - e dos colégios que vierem a aderir ao projeto - receberão também um treinamento especial para orientar os alunos a fazer as observações e as pesquisas. O financiamento para realização do projeto Observatórios Virtuais é de R$ 400 mil e veio da Fundação Vitae. Cada telescópio custa em média US$ 6 mil.

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